"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cartas de Amor

Em ‘Almanaque’, o eu - lírico buarqueano pergunta filosoficamente ‘pra onde vai o amor depois que o amor acaba’. Pra onde vai não sei, ninguém sabe, mas sei onde encontrar os melhores recortes, as melhores lembranças dos amores que se foram: nas cartas trocadas pelos amantes enquanto o amor os habitava.

Hoje, a tecnologia praticamente sepultou o costume de trocar cartas, o que é uma pena. Basta um clique e a outra pessoa tem, no mesmo momento, seus escritos, sentimentos na tela do seu computador, celular, ou o que seja. Óbvio que é uma beleza quando pensamos em praticidade, mas perde-se o cuidado ao escrever, a preocupação com a apresentação e, principalmente, a espera e a maravilha que é receber uma carta. São indescritíveis os momentos que antecedem a leitura, a expectativa e ansiedade do ritual. Lembro de algumas vezes, assim como a protagonista do ‘Felicidade clandestina’, postergar o prazer, adiando o momento de ler, carregar o envelope o dia inteiro, fingindo esquecer que estava comigo e só à noite me entregar à curiosidade e partir para a cartinha.

Até hoje gosto de mandar cartas, até porque me expresso melhor pela escrita do que pela fala. Mas houve pelo menos dois relacionamentos em que a troca de correspondências foi fundamental. Um deles com uma grande amiga por quem fui apaixonado, o grande amor da minha infância/adolescência e que nunca passou de amizade não sei bem o porquê, mas não era mesmo pra ser, a vida nos afastou de várias maneiras. De qualquer forma, é bom reler as cartas e reviver momentos como a gente assustadão de estar fazendo 17 anos (!!), dividindo nossas angústias quanto ao futuro e declarações de amor veladas, só se permitindo um pouco mais ao falar de saudade.

O outro foi mais tarde, meu namoro mais duradouro até hoje. As cartas eram fundamentais, pois existia a distância física, era uma média de dez dias separados para um encontro de três dias. E através das correspondências, mais do que dos telefonemas, expressávamos nossa saudade, ansiedade para o próximo encontro e relembrávamos com detalhes cada momento dos dias que passávamos juntos. É só eu reler qualquer carta desse período para ver que era realmente especial. Ali já havia grandes declarações de amor e um romantismo de fazer inveja a qualquer aspirante a Werther. 

Gosto às vezes de reler as cartas recebidas ou os rascunhos das que enviei para relembrar nostalgicamente minha juventude e o quanto as coisas eram mais simples (?).

Há também cartas escritas que acompanharam discos que gravei e mandei por correio, cartas de fim de relacionamento e uma linda que recebi do meu pai na época do começo da faculdade e que até hoje não respondi, por não me sentir preparado. Mas isso já é outro assunto.

Tive muita relutância a ter e-mail no começo, por achar que não poderia me emocionar com uma mensagem recebida na tela de um computador. A falta de todo o ritual já citado, para mim, tiraria toda a graça. Claro que o tempo e a inevitabilidade da modernização me fizeram mudar de ideia e são incontáveis as vezes que me emocionei com e-mails recebidos ou textos lidos pelo computador.

E até uma conversa por MSN, recurso a que ainda apresento bastante resistência, conseguiu me emocionar dia desses. Dois no mesmo estado de espírito, entre lamentações e boas lembranças, a constatação de que o amor pode permanecer após o fim das relações. E quando eu falei algo como me lamentar por termos nos encontrado no momento errado, recebi como resposta: “mas eu não seria quem sou se não tivesse te conhecido naquela época.” 

Foi como se a tela do computador se convertesse em uma folha de papel desgastada de tanto relida e eu fosse novamente o Ricardo emocionado com mais uma carta fundamental para minha vida.

"I read your letters to feel better...
 Por Ricardo Pereira

2 comentários:

  1. Emocionada com a leitura e com a maior lua que já tive oportunidade de ver nascer no céu, digo que guardo cada uma das cartas que recebi com um carinho que não pode ser descrito em um 'post'.
    Sim, as cartas trazem consigo um ritual velado. Só compreendidos por quem remete e seu destinatário.
    Como fui feliz na adolescência com a espera, com a leitura, a resposta cuidadosa e a ausência que protagonizava a tentativa de tradução de saudade.
    Não falo do envelope, do papel e nem das linhas, falo do que ficou entre as linhas...perdido num tempo que jamais voltou.
    'Winnie Cooper'

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  2. Que isso, Alexandra, é seu aniversário e eu que ganho presente... rs

    Fico feliz que tenha gostado. Guardo com carinho imenso cada carta e cada lembrança de um tempo realmente especial.

    Obrigado e grande beijo,

    'K.A."

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