"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Retrato em branco e preto


Sentimental eu fico quando vão chegando os últimos dias do ano. Sou bastante nostálgico e todo ano acabo fazendo aquele balanço do ano, os momentos marcantes, fatos importantes... Invariavelmente acabo numa melancolia terrível, pois apesar de passar muito rápido, acontece tanta coisa no espaço de um ano que essa rememoração beira à vertigem. Para tentar evitar este sentimento, despejo aqui minha retrospectiva pessoal 2010. E já vou avisando... Um texto longo, repetitivo, sentimental, que talvez só guarde algum interesse mesmo para mim e minha autoanálise anual...

“Tua estrela solitária me conduz!”

Costumo, no auge da minha arrogância, irrealidade e presunção, afirmar que sou o Botafogo. Este ano, nossos caminhos possuem algumas semelhanças. Final de Janeiro, uma derrota inesperada 0x6 em um clássico, fiquei completamente desnorteado, arrebentado, uma semana sem conseguir sair de casa. Noite em claro esperando a chegada do novo técnico, veio o Joel e quem diria que depois da humilhação, viria a redenção. Campeão Carioca sem precisar de final, vencendo os três maiores adversários e, na final, o algoz dos últimos três anos, em um jogo inesquecível, com golaço de pênalti (só no Botafogo mesmo...) do Loco Abreu. Este, a grande figura do time, finalmente um ídolo depois do Túlio. Um jogador que me fez, na Copa do Mundo, torcer mais para o Uruguai do que para a nossa seleção.

Após a humilhação e a redenção, um campeonato brasileiro digno, prejudicado por desfalques importantes e por vacilos inacreditáveis em casa. Não fosse isso e poderíamos ter voado mais alto, e não estou falando só do Botafogo, mas aí já outra história...


 
“Num dia assim calado você me mostrou a vida, e agora vem dizer pra mim que é despedida.”

2010 foi um ano marcado por despedidas. Doloridas, marcantes, importantes... A começar por Lost. A última temporada foi acompanhada como contagem regressiva, “agora faltam apenas x episódios inéditos...”. Eu achava que nada na televisão poderia me emocionar tanto como ‘Anos Incríveis’, mas Lost me provou o contrário. Nos seis anos em que acompanhei a série, foram tantas reviravoltas, discussões acaloradas, teorias as mais loucas imagináveis e apego aos personagens que foi estranho ter que me despedir da série. Inevitável pensar no quanto vivi enquanto acompanhava aqueles personagens tão perdidos quanto eu. E fica a certeza que vai ser difícil alguma série conseguir o que eles conseguiram no final da terceira temporada, junto com ‘The constant’, dois episódios perfeitos!

Outra despedida marcante foi a de José Saramago. Não imaginava que fosse sentir tanto, mas, ao saber que não estava mais entre nós, senti um vazio no mundo. Aquele homem e sua obra mudaram minha vida, ampliaram minha visão de mundo, trouxeram novas perspectivas literárias, me aproximaram de Portugal, sedimentaram meu caráter, de certa forma. A obra permanece, e certamente voltarei a ela algumas vezes antes do fim.

Este ano foi marcado também por mais um final de relacionamento, um amor que devia/poderia ter durado anos. Hoje é mais fácil analisar as coisas e perceber que não poderia mesmo ser diferente naquele momento, mas não foi fácil lidar com o modo como algumas coisas se desenvolveram. Logo após o término, vivi ‘Nervos de aço’, em um dia de jogo do Brasil na Copa. Ainda bem que estava torcendo para o Uruguai... Arrebentou minha autoestima, confiança e alimentou paranoias de vários tipos. Mas com o tempo e uma ‘pequena’ ajuda de meus amigos, consegui não só superar, mas enxergar as coisas como realmente foram!

E por fim a despedida de um emprego muito importante para mim e que eu tinha a consciência de estar fazendo um grande trabalho. Não vou entrar no mérito das causas e consequências. Quero apenas agradecer a todo o apoio que recebi, dos alunos, outros professores, amigos, familiares, pais de alunos... Foi muito importante para mim, nunca vou esquecer, podem ter certeza disso.

 É meio ridículo falar isso na minha idade. Mas foi um ano também de perda da inocência, muito em decorrência de algumas destas despedidas.  Houve também algumas decepções consideráveis que contribuíram para tudo isso que levaram a entrada real na vida adulta, primeiras crises ‘de verdade’. Mas tô aí, posso não ser sempre feliz, mas não sou mudo, hoje eu canto muito mais...


“Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal.”

Mais um ano vivido “entre o sonho e o som”. Das muitas leituras, posso destacar O Passado, do escritor argentino Alan Pauls, que li em janeiro e me deixou forte impressão. Achei foda a biografia do Bill Graham, orgulho danado quando li a do Heleno de Freitas, tive uma leitura intensíssima de O Velho e o Mar e releituras ainda mais proveitosas de Corpo de Baile, de Guimarães Rosa e de Dom Casmurro.

De músicas, além das que coloquei nas listas, um disco importante foi o Changing Horses, do Ben Kweller, que comprei em janeiro e que meio que antecipou uma das paixões do ano, o country-rock. Lendo um livro sobe os Stones, me interessei por um cara chamado Gram Parsons e fui atrás da discografia dele, começando pelo Flying Burrito Brothers - paixão à primeira audição - depois para seus discos solo. Renato Teixeira foi outra grande descoberta, não paro de ouvir!

Viúvo de Lost, tentei outras séries. House está sempre presente por aqui, servindo de metáfora e, às vezes de forma assustadora, de modelo de comportamento também. Gostei bastante de Dexter, vi a primeira temporada no meio do ano e estou iniciando a segunda. Uma série marcante foi Men of a Certain Age, três amigos (o conselho?) tendo que lidar com os problemas e alegrias da vida e da passagem do tempo. Consegui me divertir, me emocionar e, o mais importante, mesmo não tendo ainda a mesma certa idade, me identificar com os personagens e situações. E tive o meu momento Twin Peaks. Em duas semanas assisti a série inteira, vivi na cidade e fiquei maluco, encantado com o mundo criado por pelo não menos maluco Lynch. Até a contestada segunda temporada fez minha cabeça, até hoje sinto falta dos personagens e do clima de Twin Peaks...

E 2010 vai ser para sempre o ano que vi Paul McCartney. Faltam adjetivos, vamos então ao clichê: um momento mágico. Ver um Beatle, como explicar? E o dia foi fantástico, com amigos, nos divertindo e vivendo a expectativa do que viria a seguir.



"Não preciso de modelos, não preciso de heróis. Eu tenho meus amigos e, quando a vida dói, eu tento me concentrar num caminho fácil"

Os amigos, sempre tão importantes. E fundamentais em muitos momentos deste ano. Desde a proximidade com Loo e Cecel, que se estreitou ainda mais pelo fato de sermos vizinhos, até a aproximação com meus pais, que aumentou depois que saí de casa, é grande a importância das pessoas queridas em minha retomada de foco nos momentos difíceis e no fato de eu chegar equilibrado neste final de ano. 

Há o José Miguel, que me aproximou ainda mais do Matheus e Carol. Momentos importantes de celebração da amizade, como a reuniãozinha despretensiosa e muito divertida no meu aniversário e, principalmente, o casamento do Cadu, em que os amigos reunidos estavam todos num clima extremamente positivo.

Os que, mesmo à distância, fazem-se perto. Henrique, Pedro, Fábio, sempre presentes, cada vez mais importantes. Ingrid e Marcella, grandes amigas que não encontrei este ano, mas que ainda assim estavam comigo, em telefonemas, e-mails, pensamentos, citações e afeto. 

Tenho que agradecer a todos, mas quero fazer um agradecimento especial a um cara. Hugo esteve comigo nos momentos em que tudo parecia perdido, eu parecia aniquilado e conseguiu me salvar do afogamento em várias dessas situações, quando terminávamos as conversas mais difíceis conseguindo até rir de nós mesmos. Somos muito parecidos em vários aspectos e a vida ainda constantemente parece nos colocar em situações similares na mesma época, isso desde que nos conhecemos. E em um ano, principalmente segundo semestre, com algumas complicações, esteve sempre por aqui. Quantas conversas na Casa da Picanha ou no meu apartamento, em que desabafamos sobre trabalhos, frustrações, discos, livros, filmes, pequenos prazeres, grandes decepções. Não sei como seria estar de volta a Angra sem meu amigo Hugo por perto.


 
"E ver o mar às vezes bem que é preciso pra ter certeza de ainda estar-se vivo, mesmo que o casco esteja velho e corroído."

Estou pronto para o próximo ano, mesmo sem saber muito como será. Mais uma vez, assim como o Botafogo, um ano de incertezas. Mas já foi pior, há um mês estava mal comigo mesmo, tão perdido e sem iniciativa, abalado com a perda de um dos trabalhos, remoendo possíveis erros e a maldade de algumas pessoas. Mas veio a força, novas perspectivas, pequenas brechas de esperança e de beleza. Posso sentir o vento no meu rosto e a expectativa de um ano melhor para mim e para os meus. Já tenho alguns planos, filmes a assistir, livros para ler. Enfim, mais um momento de transição. Que Deus - e meus amigos - estejam comigo no ano que está chegando. 

Feliz ano novo para todos nós.

Por Ricardo Pereira

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As "demos" dos "Silvas"

O meu grupo predileto, de todos os tempos, é o The Smiths. Outras bandas já ocuparam o lugar desse quarteto oriundo de Manchester - The Doors, The Clash, Green Day e Smashing Pumpkins - no meu ranking pessoal, mas não tem jeito: Morrissey, Marr, Rourke e Joyce integraram o conjunto perfeito para mim, a formação dos sonhos.

Eu bem que tentei seguir os conselhos do guitarrista e principal compositor do Oasis, Noel Gallagher - também de Manchester -, e não colocar a minha vida nas mãos de uma banda de rock... Mas não deu. Esses caras continuam assombrando, no bom sentido, a minha vida. Dois deles eu consegui ver ao vivo, em cima de um palco: Morrissey em 1999, no Rio de Janeiro - show da turnê do disco "Maladjusted"; Johnny Marr neste ano, no Festival Internacional de Benicàssim, na Espanha - tocando com sua nova banda, o The Cribs. Ah, sim, não poderia esquecer do CD autografado da banda, "The Best I", que o meu grande amigo, Rodrigo Camacho, conseguiu. Assinado pelo baixista, Andy Rourke, quando ele passou por Paraty. O único ex-integrante que ainda não tive o prazer de ter uma relação mais, digamos, pessoal, é Mike Joyce, que foi baterista do "Os Silvas". Mas tá tranquilo... Tia Moz não aprovaria uma amizade mais estreita com ele, e eu entendo. E respeito.

Vamos ao que interessa. Vazou na internet, na última semana, um arquivo com várias versões "demo" para as canções do grupo. É muito interessante, e a maioria das faixas merece atenção especial. O link abaixo leva às músicas. Confira... E divirta-se!

http://www.mediafire.com/?6p06b1g21khbi7c



Eles não são bonitos, não são maus e não usam drogas: são apenas geniais





Por Hugo Oliveira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os melhores filmes que não vi


Pensei em fazer a lista dos melhores filmes de 2010 e percebi que os que eu mais gostaria de ver, por um ou outro motivo, não consegui. Então, vai a minha lista dos melhores a que não assisti. Já é um projeto pra 2011... 

Os que mais gostei deste ano foram O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella e A ilha do medo, do Scorsese. A Origem gostei bastante também, mas abaixo destes dois. 

A lista dos melhores não assistidos:

10.  Ponyo – Uma amizade que veio do mar - Hayao Miyazaki

09.  A Rede Social – David Fincher

08. O Escritor Fantasma – Roman Polanski

07. Somewhere – Sofia Coppola

06. Sempre Bela – Manoel de Oliveira

05. Machete – Robert Rodriguez

04. Meu mundo em perigo – José Eduardo Belmonte

03. When You’re Strange - Tom DiCillo

02. A Suprema Felicidade – Arnaldo Jabor

01. José e Pilar – Miguel Gonçalves Mendes


Por Ricardo Pereira

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Antes do Fim

Faltava menos de uma hora para meia noite. Olhava as poucas pessoas na rua: putas, mendigos, trabalhadores noturnos, bêbados... Eram reais ou figurantes do seu ego?

Sentia-se superior ao resto do mundo, pensava ter escolhido a solidão. Era só fechar os olhos exaustos e lembrar-se de sua adolescência, do desprezo que sentia pelas pessoas, por qualquer pessoa. Nunca entendera o Natal, suas luzes, presentes, hipocrisia e falsa felicidade.

Agora, aos quarenta e dois, sozinho no centro da cidade, pela primeira vez desejou alguém ao seu lado. Para... comemorar? Tirou uma nota da carteira e deu ao primeiro bêbado que encontrou. Ao ouvi-lo agradecer com um balbuciante “Feliz Natal”, teve vontade de jogar o homem no chão, socá-lo até arrebentar suas próprias mãos, fazê-lo engolir a nota entregue. Mas ficou estático, olhando o pobre diabo – real? imaginário? – afastar-se cambaleante, rumo a sua falta de rumo.

“Robert? Robert?” Ouvia as poucas mulheres de sua vida chamarem seu nome, como fantasmas ao seu redor, trazendo desconforto e exacerbando seu estado. Precisava beber alguma coisa. Sozinho não tinha porque forjar a auto-suficiência que ostentava para o mundo. Precisava se afastar da realidade.

Entrou em uma igreja. Fiéis preparavam-se para celebrar o nascimento de Jesus. E o seu? Quando se daria? Sentia-se aniquilado, anos de fingimento escoavam de si, como uma hemorragia emocional. Precisava de alguém por perto para que pudesse se defender, para que voltasse a ser o que sempre fora fingindo ser o que não era.

Não! Ninguém por perto!! Seria capaz de expulsar qualquer conhecido que tentasse se aproximar. Nunca tivera afeição por sua família, não acreditava em amizade, o dinheiro sempre fora sua religião. E assumindo-se profeta de sua crença, fez-se a luz. Demitiria todos os funcionários de sua empresa, ele mesmo daria a notícia, admiraria o desespero e frustração de cada um deles. Encontraria, no sofrimento alheio, uma razão para viver.

Finalmente conseguira estar de acordo com o mundo como o enxergava. Um dia seria reconhecido grande líder, um messias dos tempos vindouros. E caminhando pelas ruas escuras, transtornado, cego, com os olhos esgazeados, sentiu, pela primeira vez, conseguir um tão desejado feliz natal.

Por Ricardo Pereira

E a melhor capa do ano...

... sem dúvida:

Hurley - Weezer
Por Ricardo Pereira

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Melhores discos de 2010 - Internacionais



1  Queen of Denmark – John Grant

Um disco de pop dos anos 70 congelado e lançado hoje, como naqueles filmes da Sessão da Tarde. Beleza, melancolia e o melhor conjunto de canções inéditas lançado em 2010. Para ouvir inteiro, sem pular nenhuma faixa.


2  Guia – António Zambujo

O jovem fadista português consegue manter o nível alcançado no anterior, ‘Outro Sentido’, abrindo maior espaço para jovens compositores. Possui os predicados que me encantaram em seu trabalho: sua bela voz, o diálogo com a música brasileira, e todo o clima que não subestima a importância do silêncio e delicadeza. Destaco ‘Quase um fado’, ‘Não me dou longe de ti’ e ‘Zorro’.



Have One On Me – Joanna Newsom

Um disco triplo de uma harpista, com canções sensíveis e emocionais sobre amores, tempo, a vida? Enlouqueceu, Ricardo? Ou sinal da idade? Não sei explicar. Sei que encontrei, nessas canções, algo próximo da beleza que deve salvar o mundo, segundo Dostoievski. Não é para se ouvir os três seguidos sempre, mas foi dessa forma que fui envolvido em uma espécie de quase epifania.


 
The Age of Adz – Sufjan Stevens

Eis que Sufjan Stevens resolve desafiar seu público, acostumado às doces melodias pop-folk costumeiras e lança um disco longo, denso, “difícil”, amargurado, cheio de ruídos e batidas eletrônicas soterrando e camuflando as belas canções. Fins de relacionamento, dificuldade de crescer, desapontamento com o mundo, está tudo aqui, num disco que me surpreende e encanta de forma diferente a cada audição.



You Are Not Alone – Mavis Staples

Uma cantora excepcional, aos 71 anos, em um discaço gospel, produzido por Jeff Tweedy, do Wilco. Excelente repertório e interpretações arrebatadoras, confira ‘Only the Lord Knows’, ‘In Christ There Is No East or West’ e ‘You are not alone’.


 
Lonely Avenue – Ben Folds & Nick Hornby

Junção de um hábil compositor pop e um escritor ícone da literatura pop, cantando sobre corações partidos. Não tinha como dar errado. É como assistir/participar de um filme de enredo muitas vezes familiar, seja cantando junto o excelente refrão de ‘Levi Johnston's Blues’, querendo ter escrito a letra de ‘Password’ ou encantado com ‘Belinda’, uma das melhores músicas que ouvi este ano.


 
7  This is Happening – LCD Soundsystem
Mais um grande disco composto por James Murphy. É admirável o talento deste cara para compor músicas tão boas e diferentes entre si, misturando disco, música eletrônica, rock e o que mais o interessar. Há quem reclame da longa duração das músicas e de uma certa repetição. Questão de gosto. ‘All I want’, ‘I can change’ e ‘Drunk girls’ foram presenças constantes por aqui. 



 
Home Sweet Mobile Home – Nellie McKay

Excelente disco, de um frescor pop, mesclando reggaes, rocks, um leve toque jazz e baladas deliciosas. Começou despretensioso e foi ganhando espaço no meu gosto pessoal. Há um clima de ‘filme antigo’ em faixas como a lindinha ‘Bluebird’, a latina ‘!Bodega!’ e principalmente em ‘Dispossessed’.


 
9 Hawk – Mark Lanegan & Isobel Campbell

É o tipo de disco que convém manter longe em dias que não se está bem. A simplicidade dá a tônica aqui e, ainda mais do que nos anteriores, mesmo nas faixas mais agitadas paira um clima de tristeza e melancolia. Não sei porque sempre que ouço penso que poderia ser trilha sonora de um filme do David Lynch...


 
10  Contra – Vampire Weekend

Não sou grande admirador das bandas herdeiras das experiências percursivas de Paul Simon, que misturam rock a ritmos africanos, mas abro exceção para o Vampire Weekend. Este segundo álbum manteve o bom nível do primeiro com músicas simples e irresistíveis.

 
Outros bons discos tiveram que ficar de fora, como o último Belle & Sebastian (Write About Love), que a despeito dos bons momentos não engrenou. O ótimo The Suburbs, do Arcade Fire, que peca pelo excesso. O Le Noise, disco de guitarra e voz do Neil Young, que por mais que eu ouça não sei o que pensar sobre. E o Hurley, disco anual do Weezer, mais pesado que os anteriores e bastante divertido!

Por Ricardo Pereira

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Melhores discos de 2010 - Nacionais

Aqui vai minha primeira das listas do ano. Não custa lembrar que, como qualquer lista, é extremamente subjetiva e o critério pessoal interfere mesmo na ordem, podendo acontecer que discos melhores estejam posicionados abaixo de outros que me marcaram mais. O que me chamou atenção foi o número de estreias – sete de dez -, o que mostra que o momento da música brasileira não é ruim como querem nos fazer pensar.




1  Feito pra acabar – Marcelo Jeneci

Há um mês atrás, tinha certeza que este posto seria da Tulipa. Mas Jeneci, aos 45 do segundo tempo, emplacou um discaço, irrepreensível. Canções apaixonantes como ‘Pra sonhar’, ‘Dar-te-ei’, ‘Quarto de dormir’ e ‘Por que nós?’ juntas em um mesmo disco de inéditas compõe um trabalho que deveria marcar época. Que seja, ao menos, mais ouvido.

 
2  Efêmera – Tulipa Ruiz

Provavelmente o disco nacional que mais ouvi no ano, a estreia da cantora Tulipa se destaca em meio a novas cantoras nacionais padronizadas. É um álbum leve, gostoso de ouvir e a voz dessa mulher é incrível, ao vivo é ainda melhor, dá vontade de casar com ela. Minhas preferidas são ‘Pontual’, ‘Brocal Dourado’ e o pop perfeito ‘Às vezes’.

 
3  O Amigo do Tempo – Mombojó

E o Mombojó segue, agora mais independente do que nunca, mostrando maturidade e força em um álbum mais melancólico que os anteriores. Destaques: ‘Justamente’, ‘Casa Caiada’ e ‘Praia da Solidão’.

 
4  Superguidis – Superguidis

Terceiro da banda, é o álbum mais direto e vigoroso deles. Gravam as guitarras que mais gosto do rock nacional atual - fora o Catatau, claro. É um disco curto, pra ouvir no repeat, até difícil escolher só três favoritas, mas vou de ‘O usual’, ‘Não fosse o bom humor’ e ‘Casablanca’.

 
5  Berlim Texas – Thiago Pethit

Outro disco curtinho e encantador. Canções simples levadas ao piano e violão falando de amor de forma aparentemente despretensiosa. ‘Não se vá’, ‘Sweet Funny Melody’ e, principalmente’, ‘Fuga Nº 1’ foram trilha sonora perfeita em alguns momentos deste ano.

 
6  Do Amor – Do Amor

A despretensão e bom humor da banda carioca parecem não ter sido entendidos por alguns, azar o deles. Se o disco todo fosse na linha de ‘Perdizes’, ‘Isso é Carimbó’ e ‘Morena Russa’, subiria fácil umas três posições. De longe, o mais divertido da lista.

 
7  Apanhador Só – Apanhador Só

Outra estreia promissora, a banda consegue unidade e originalidade em sua mistura de ritmos. Não é pouco não, ouça canções como ‘Pouca Importa’, ‘Peixeiro’ e ‘Vila do meio dia’ pra entender.

 
8  Tantas Marés – Edu Lobo

Retorno triunfal de Edu Lobo em um disco carregado de sentimento. Fácil se emocionar com as caprichadas interpretações de ‘Coração cigano’, ‘Tantas marés’ e ‘Qualquer caminho’.

 
9  Vermelho – Nina Becker

Nina Becker saiu com dois discos solo, Azul e Vermelho. Preferi o segundo, pois é mais “vivo” e intenso. Acompanhada da rapaziada ‘do amor’, a cantora coloca sua bela voz a serviço de belezas como ‘Toc-Toc’, ‘Superluxo’ e ‘Do Avesso’, deslumbrante parceria de Nina e Nervoso.

 
10 Eu menti pra você – Karina Buhr

Um disco que não me pegou de cara. Mas o sotaque e o jeitinho de Karina cantar foram me ganhando aos poucos e, quase sem perceber, fui me encantando com músicas como ‘Vira Pó’, ‘Plástico bolha’ e ‘Eu menti pra você’.


Não couberam no top 10, mas merecem menção, o ‘Música de brinquedo’, do Pato Fu e ‘Extravaganza’, da Sílvia Machete. ‘Deus e o Diabo no liquidificador’, do Cérebro Eletrônico, comecei a ouvir esta semana e vem crescendo a cada audição. Mais umas semaninhas e entraria fácil, fácil na lista.

Por Ricardo Pereira

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Feliz aniversário, Ricardo!



Três décadas de vida, mano. Não é pouco. Parabéns, felicidades, dinheiro no bolso e muita música!

Por Hugo Oliveira

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Do amor e outros demônios

Sou obcecado por listas. Desde moleque, mesmo antes de Hornby, sempre gostei de catalogar discos, filmes, melhores músicas de aberturas de discos e por aí vai. E ao ver a lista de melhores álbuns do ano da revista Mojo – e aqui abro um parêntese, minhas listas do ano surgem essa semana e as da década entre a última semana do ano e a primeira de janeiro -, encontrei Queen of Denmark, de um cantor chamado John Grant.

Como não o conhecia, fui atrás do disco. E acabei encontrando um trabalho da linhagem de um Automatic for the people, do R.E.M.; do primeiro Damien Rice; do Out of Season, da Beth Gibbons; do Sky Blue Sky, do Wilco, só pra ficar entre ‘recentes’. Ou seja, um conjunto de canções pop melancólico, emocionante, que nem o ouvinte mais exigente seria capaz de mudar detalhe algum.

A primeira impressão que se tem é de um disco dos anos 70 gravado com a tecnologia atual. Mas a despeito de comparações ou de como é bem gravado, o que se destaca mesmo é o poder de emocionar de cada música. Um dos discos mais bonitos que escuto nos últimos tempos.

Grant possui um timbre de voz lindo e os arranjos criados são de uma elegância e estilo perfeitos para ele. O cantor parece ter o dom de artesão pop, capaz de criar melodias aparentemente simples e fazê-las crescerem no momento exato. Tematicamente, o disco trata, assim como grande parte dos citados anteriormente, das dores e dificuldades da vida, do amor. Há algo meio gauche, do homem que não se adapta ao mundo, e também uma melancolia e desejo de evasão tipicamente românticos. Mas a vantagem é que aqui não há auto-piedade ou drama excessivo e sim uma dose de sarcasmo e ironia que faz com que as letras fujam do lugar comum.

Então as canções, que em sua maioria possuem um clima melancólico, ganham uma dose de humor, como, por exemplo, em ‘JC Hates Faggots’ ou nas referências à ficção científica presentes em alguns momentos.

É possível detectar um pouquinho do melhor Elton John, Bowie ou Cohen em meio aos arranjos folks e orquestrados de números como ‘TC and Honeybear’ ou ‘Sigourney Weaver’. Mas surgem apenas como influência, nunca como ‘cópia’.

Em meio a cantores e bandas com sons e discursos padronizados, é um prazer ouvir Grant compor grandes canções atemporais, nesta que é das melhores estreias recentes. E para quem acha que é mais um dos tantos exageros do Ricardo, ouça a canção abaixo, ‘Where Dreams Go To Die’, e veja se não tenho razão.




Por Ricardo Pereira

Música nova do R.E.M.: Discoverer



E para quem, como eu, está ansioso por Collapse Into Now, próximo álbum do R.E.M., a ser lançado em março de 2011, pode baixar no site da banda a primeira canção divulgada: 'Discoverer'.

Gostei bastante, clima dos discos deles dos anos 80, com umas guitarras entre o Monster e o Accelerate. Mas essa é apenas a primeira impressão.

Para baixar  clique aqui.

 Por Ricardo Pereira

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Voltar a cantar

Um dos períodos mais traumáticos da minha vida se deu quando eu tive que parar de cantar. Na verdade, quem impôs a pausa não foi o "suposto" calo nas cordas vocais; nem a minha vida profissional e/ou emocional. Acho que fui eu, mesmo que inconscientemente, que dei um basta naquilo que eu mais gostava de fazer. E gosto.

Não tenho ilusões. Amo ser jornalista - apesar de todas as dificuldades - e tenho adorado, cada vez mais, atuar como DJ, mas a minha alma é mesmo de artista. Meio pretensioso, não? Pomposo, até. Mas é assim. Sou feliz demais dentro de uma sala de ensaio com quatro, cinco caras, todos suados, mal encarados, empunhando instrumentos musicais e fazendo barulho. Ah, a poesia de três acordes maltratados. Triste de quem nunca viveu isso. E os shows? Na verdade, na maioria das vezes, eles nem poderiam ser chamados de shows. Eram apresentações improvisadas, aparelhagem insuficiente, infraestrutura idem. Mas eu era feliz. Demais.

E aí, veio a merda. Primeiro, uma falha mínima na voz, cantando. Todo mundo rindo das minhas reclamações, mas eu lá, insistente, sabendo o que estava sentindo - será? E com medo, muito medo. Pavor, na verdade. Imagine que você passou quase dez anos da sua vida ensaiando, tocando, fazendo shows, compondo e, de repente, tudo se acaba, num piscar de olhos. Foi assim. Depois do "probleminha inicial", ladeira abaixo: a falha que era mínima cresceu, se espalhou também pela voz, ao falar. The show is over. Say goodbye.

Pensei que ia ficar mudo. Que meu futuro, como músico e jornalista, já era. Não foi bem assim, felizmente. A carreira como bacharel em Comunicação Social vai "indo", obrigado. A faceta musical? Ainda empacada. Mas existe esperança. A insegurança ainda reina por aqui, mas venho tentando encará-la de frente, cara a cara. Não é assim que tem que ser? Conviver com o que mais nos mete medo para perder o temor? Estou lutando. Sim, já entrei numa aula de canto, mas desisti. Não aguentei a pressão que eu mesmo coloquei sobre os meus ombros. Mas eu estava no meu quarto, quase agora. Violão em punho, voz presente, embora imperfeita - para os meus padrões. E minhas letras.

Foi mau aê, mas eu me lembrei que eu sou bom. Não um gênio, um virtuoso - arghhh! - ou um poeta. Mas eu sou bom. Não em todas as músicas, minhas músicas. Devo ter criado umas 50 canções durante toda a minha vida. Metade é ruim. Umas 15 são razoáveis. Uma dezena delas é boa... Com algumas realmente ótimas - às favas com a falsa modéstia.

Vou deixar a letra de uma delas aqui, intitulada "Um cantor". É um "countryzinho quatro acordes". Faz parte do grupo das boas, penso eu. Foi composta nos meus "drugstore days", quando eu trabalhei numa farmácia, no Centro de Angra dos Reis.


Um cantor

Toda essa gente nova já é tão velha
E tão certa de que é tão nova
Consomem alegria e vomitam horror
Tornando o mundo mudo e sem amor

E a poesia está ardendo em febre
A poesia está gritando de dor
A verdadeira poesia profere
"Não é assim que se faz"

Um cantor
Não canta sobre o seu pudor
Um cantor
Canta o ódio
E o amor

E agora as nuvens correm como insetos
E o cheiro da chuva me é familiar
Esqueço bits, intrigas e restos
Torno-me Deus do meu próprio lugar

Minhas canções são feitas e perfeitas
Apenas com minha imperfeição
O recheio é feito de realidade
E a cobertura é de ilusão

Um cantor
Não canta sobre o seu pudor
Um cantor
Canta o ódio
E o amor

E o amor... E o amor... E o amor...

Fim


Um cantor


Por Hugo Oliveira

Obs: esta postagem é dedicada ao meu amigo Alexandre Campos, que faz aniversário na quinta, dia 16 de dezembro.  Jornalista e músico de mãos cheias, o popular "Chiquinho" é também um cara muito, muito centrado. E eu tenho um puta orgulho disso, por mais que ele ache que não. De qualquer forma, eu também me sinto no dever de dar um toque.

Cara, eu gostaria muito de te ver tocando novamente. Pense a respeito.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Feito pra repetir

Em uma aula recente de Redação, sobre análise crítica, uma aluna perguntou em que gênero os Beatles se enquadravam. Respondi rock, mas rock, ela associava a metal e tosqueira. Música pop? “Mas professor, Lady Gaga não é pop? Justin Bieber?” E enveredamos pela tortuosa definição de pop, pop-rock, rock clássico e por aí vai...

E acabei voltando ao preconceito que “ser pop” carrega, principalmente, entre os ‘alternativos’. Pois hoje vou falar de um disco pop no melhor sentido do termo, pop em cada faixa, pop pop pop no melhor que a música pop tem a oferecer. Refiro-me a ‘Feito pra Acabar’, álbum de estreia de Marcelo Jeneci.

Jeneci já foi um Cidadão Instigado, trabalhou com Arnaldo Antunes e vem se apresentando com Tulipa Ruiz, que lançou o outro grande disco nacional do ano. Em seu debut, Marcelo montou uma superbanda, com Curumim na bateria, Scandurra na guitarra, Régis Damasceno no baixo e o próprio cantor com piano e sanfona, seu instrumento de origem. A linda voz de Linda Lavieri divide o álbum quase todo com Jeneci e a produção de Kassin arredonda tudo.

Os arranjos são lindos, as letras acima da média na produção musical brasileira recente, mas o que mais me ganhou no disco é o clima, a leveza que perpassa o álbum todo e faz com que você queira ouvir de novo assim que o mesmo acaba. Ouvindo ‘Quarto de dormir’ é impossível não lembrar o melhor de Roberto e Erasmo da década de 70, como bem me lembrou meu amigo Cadu. É uma das minhas preferidas. Mas se o leitor quer ter a noção do potencial ‘popístico’ do disco, recomendo a audição de ‘Pra sonhar’, música que me traz sentimentos inexplicáveis, desde a introdução, com destaque para a sanfona, à melodia perfeita e à letra singela. Possivelmente a melhor canção nacional que ouvi este ano.

Há ‘Longe’, que Arnaldo Antunes já havia gravado em seu ótimo último álbum e aqui aparece com interpretação inspirada de Laura Lavieri. ‘Dar-te-ei’ é uma linda declaração de amor e aqui reside um dos méritos de Jeneci: saber ser romântico sem ser brega. Qualquer um que já tenha tentado compor uma canção de amor sabe o quanto isso é difícil.

E o álbum segue, sem pontos baixos, até seu fechamento com a bela canção título. Recomendo a todos que se dispam dos preconceitos e ouçam com atenção este disco, que junto com ‘Êfemera’, da Tulipa Ruiz e ‘Berlim Texas’, de Thiago Pethit, desmente os que apregoam não se fazer música pop de qualidade hoje em dia no Brasil.

Por Ricardo Pereira

Baixem, comprem: ouçam!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Túlio Botafogo


Daqui a uma semana, dia 17, comemoram-se quinze anos da conquista do Campeonato Brasileiro pelo Botafogo e do consequente quase enfarto do Ricardo então com 14 pra 15 anos. Parece que foi ontem. Wagner, Wilson Goiano, Gottardo, Gonçalves (que zaga, meu Deus!!), André Silva, Leandro, Jamir, Sérgio Manoel, Donizete e Túlio comandados por Paulo Autuori formavam um time inesquecível para mim e para todos os botafoguenses que o acompanharam.

Mas se há um grande responsável pelo título, pode-se afirmar certamente tratar-se de Túlio Maravilha. Atacante veloz? Nem pensar... Driblador? De jeito algum... Ah, extremamente habilidoso, então? Longe disso... Mas um goleador impressionante, um dos maiores que vi jogar. Do tipo que a bola escolhia seus pés para ser guardada nas redes. Arrancada de Sérgio Manoel, jogadaça de Donizete, não tinha jeito. A bola procurava o artilheiro para o gol.

Para mim, na ingenuidade e deslumbramento dos quatorze anos, era algo fora do comum. A primeira vez que o vi no estádio foi no Campeonato carioca de 95, no Moça Bonita em um jogo que o Botafogo perdeu de um a zero (não lembro o adversário, sei que não foi o Bangu) e o Túlio perdeu gol de tudo que é jeito. Mas já era ídolo. Se não me engano foi o último jogo de Jair Pereira no comando, depois – para minha revolta – contratam um então desconhecido Autuori, vindo do México... Ah, o futebol...

Túlio veio resgatar a autoestima de um Botafogo detonado por anos de incompetência administrativa, de derrotas doloridas, de seca de títulos, em que a torcida e a força inigualável da Estrela Solitária sustentavam o brilho imortal do clube de Garrincha, Jairzinho e Nilton Santos, entre outros gigantes.

Túlio, com seu jeito bonachão, suas frases de efeito, sua verve provocadora e, principalmente, seus muitos gols, fez o alvinegro jovem, como eu na época, orgulhar-se, exibir a camisa, estudar a história do clube, ir ao estádio, acompanhar com idolatria aquele artilheiro predestinado.

Uma pena eu não estar no Rio amanhã, pois Túlio estará a partir das oito da manhã em General Severiano autografando a camisa em sua homenagem a ser lançada, com inteira justiça. Gostaria de dar um abraço nele e agradecer humilde e sinceramente por ter escrito um capítulo tão importante na minha vida e na história do Botafogo de Futebol e Regatas. Mais do que um clube, mais do que uma paixão, independente de resultados e da fase vivida, é minha estrela, meu guia, um dos motivos para seguir em frente.

Por Ricardo Pereira


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Pouco tempo e uma boa versão

Correria total por aqui. Um pedido de desculpas sincero aos leitores do TATP e ao meu companheiro de escrita, Ricardo Pereira, por estar escrevendo pouca coisa ultimamente.

A desculpa aqui, é claro, vem acompanhada de música... No caso, "Panic", canção clássica da igualmente clássica The Smiths, aqui, numa versão muito classuda do girl group Puppini Sisters. "Vamo que vamo"...


Por Hugo Oliveira

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O dinheiro não é tudo...


Cometi um lapso imperdoável. Estava esperando o fim do ano para escrever sobre um dos discos que mais gosto da música brasileira: “O dinheiro não é tudo, mas é 100%”, do Falcão, que achei que estava fazendo 15 anos em 2010. Mas acabei de ver que o disco é de 1994... O que não impede que eu fale desse que considero um clássico da MPB.

Engraçado é que as pessoas não acreditam quando falo isso, acham que é piada. O que demonstra normalmente, além de preconceito, falta de conhecimento, pois uma audição atenta já colocaria o cantor cearense acima de bandas e cantores comediantes que tiveram seus 15 minutos de fama há alguns anos.

O disco possui uma produção caprichada de Robertinho do Recife, que soube formatar a moldura perfeita para os versos e para a – ok, tosca – voz de mestre Falco. Esse é um disco que vale ter o original, pois além das letras impressas, o encarte possui um glossário com traduções e explicações hilárias para trechos das canções do álbum.

Não há uma música ruim. A primeira, ‘Onde houver fé que eu leve a dúvida’ já mostra a veia irônica da dupla Falcão e Tarcísio Matos, escrachando a religião, a simples audição desta primeira música já deveria calar quem compara Falcão a Tiririca ou outros palhaços cantores. ‘As bonitas que me perdoem, mas a feiúra é de lascar’ cita Vinicius de Moraes, no título, e Belchior em seu refrão, que, ainda hoje, 16 anos após seu lançamento, ainda me faz rir de verdade. ‘O desgosto que tua mãe me deu’ é uma beleza, pérola subestimada do cancioneiro nacional, lindos versos, linda melodia. ‘Prometo não ejacular na sua boca’ é um rock, que, além do belo título, possui versos do nível de “pelas marcas de pneu nas suas costas, eu vejo que você andou se divertindo”. ‘Isaltina’ é um dos poucos reggaes que realmente gosto, narra as desventuras de um menino eliminando uma lombriga. “não é justo que o menino sofra solitariamente” – poesia pura!! O lado A fecha com ‘Ai! Minha mãe’, uma singela valsinha, como que nos preparando para o que o disco ainda vai nos proporcionar.

Pois o lado B começa com ‘Um bodegueiro na FIEC’, em que os emergentes são ridicularizados lindamente. A canção título do álbum é uma das minhas preferidas, um lindo bolero, com direito a falsete emocionado e tudo, em uma letra política, que é, infelizmente, cada vez mais atual. ‘Black People Car’, versão de Fuscão Preto em um inglês falcônico, é hilária. ‘Ah! Uma jaula’ é uma balada perfeita, com lindas guitarras de Robertinho do Recife e que proporcionou um lindo momento familiar, ao ser cantada com emoção por meu primo Fábio no meu aniversário de 26 anos, emocionando a todos os presentes! ‘A influência da farinha na alimentação cearense’ é o outro reggae do disco e possui uma letra com a qual concordo, pois comenta um dos motivos de nosso pais ser tão atrasado e a possível solução: Falcão para professor! E o fecho do disco é com a marchinha ‘A volta do regresso’, exaltação emocionada ao Brasil.

Este foi o segundo disco do Falcão. Há um primeiro – ‘Lindo, bonito e joiado’ – muito bom,  e o terceiro, ‘A besteira é a base da sabedoria’ é outro álbum perfeito. E, se o mundo fosse um lugar justo, esses três já o colocariam como um clássico da nossa música, ali entre um Chico e um Belchior. Mas ainda há outros grandes momentos em sua carreira, como ‘A um passo da MPB’, em que o cantor aparece de muletas na capa, ou músicas excelentes em discos menores, como ‘Uma noite não é nada’, por exemplo.

Este texto é dedicado a Henrique, Fábio, Gláucio, Cecel, Cadu, Maycota, Hugo, Pegué e a todos que sabem reconhecer a genialidade do Falcão e sonham com um disco acústico duplo, contendo todos os clássicos com direito ao acompanhamento de alguma grande orquestra!

Por Ricardo Pereira

Qualquer semelhança...

Rock/pop espanhol - parte 3

Mais uma dica relacionada aos bons sons vindos da Espanha. Em dose dupla. Ah, sim: são duas cantoras.

A primeira, Alondra Bentley, na verdade, não nasceu no citado país, mas passou a residir na cidade de Murcia aos cinco anos. Ela canta - e como canta! - em inglês, e suas músicas têm influências de pop e, principalmente, folk.

Assisti ao show da cantora no FIB 2010, em Benicàssim. Foi talvez a melhor surpresa do festival. Assim que retornei a Barcelona, fui correndo comprar o primeiro CD da moça, "Ashfield Avenue". Músicas simples, mas criativas. Uma voz cheia de doçura. A canção abaixo, por exemplo, é especial. Adoro a timidez charmosa que ela imprime, quando canta.


Já Christina Rosenvinge, representada por aqui com a canção "La distancia adecuada", consegue imprimir sensualidade em qualquer coisa que ela canta. Acho até que falando ela deve destruir corações... E não precisa ser nada de especial, não. Frases como "Acabou o feijão", "Você lava a louça hoje?" ou "Tô com vontade de matar um", ditas por ela a algum sortudo, podem fazer o amor florescer. Fácil. Vai fundo.


Um bom dia a todos.

Por Hugo Oliveira

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

António Zambujo e o novo fado


 Tenho uma relação especial com Portugal, apesar de nunca ter ido lá. Muito por minha ascendência portuguesa, meus avós paternos vieram de lá e tenho várias características lusitanas, umas ‘no sangue’, outras adquiridas. A literatura é outro ponto de aproximação, Eça, Saramago e Abelaira foram grandes paixões em épocas diferentes. Inclusive, quando entrei no mestrado que não concluí, foi para Literatura Portuguesa. Por conta disso, passei a estudar a história de Portugal e me interessar ainda mais.

Em 2008, cismei que queria conhecer o que se produzia de música contemporânea portuguesa. E foi nessa pesquisa que conheci António Zambujo. Li que o disco ‘Outro Sentido’ (2007) havia recebido o prêmio de melhor disco de World Music numa revista francesa e fui atrás.

Simplesmente fiquei fascinado com o álbum, ouvi diariamente por cerca de um ano. Zambujo moderniza o fado ao juntá-lo com MPB, bossa nova e um toque de cool jazz. Para quem ainda não conhece, recomendo que comece com esse disco. É o terceiro de carreira e o primeiro a ser lançado no Brasil, via Universal. Gosto do álbum inteiro, há releituras de temas da música brasileira, como ‘Quando tu passas por mim’, de Vinicius, e interpretação de fados clássicos como ‘Amor de mel, amor de fel’, de Amália Rodrigues.

Há um clima especial, seja pelos arranjos suaves, que privilegiam a emoção e a voz – e que voz! – de Zambujo. Assisti a seu show as duas primeiras vezes em que esteve no Rio, em junho do ano passado, no Espaço Tom Jobim, e mais pro final do ano no Teatro Rival, a primeira vez com meu irmão e a segunda com meus pais. Foi algo especial, o poder da voz e da presença deste cantor é impressionante. Não fui a poucos shows e posso dizer que foi a melhor performance vocal que já presenciei ao vivo.

Este ano saiu seu novo disco, ‘Guia’, também lançado por aqui. Mais uma vez, estou encantando e ‘vivendo dentro’ do álbum. É um disco lindíssimo e que está me conquistando aos poucos, assim como seu antecessor. Mais uma vez, Vinicius se faz presente, com ‘Apelo’ e ‘Poema dos olhos da minha amada’, e a fórmula que me encantou em ‘Outro sentido’ está aqui aperfeiçoada, com arranjos ainda mais belos e os climas que fizeram com que me apaixonasse pela obra deste jovem fadista português.

Minhas preferidas por enquanto são ‘Não me dou longe de ti’, 'Barroco Tropical', ‘Zorro’ e ‘Quase um fado’, esta última de Rodrigo Maranhão, que, aliás, assina duas canções no álbum. Há também uma de Pedro Luís e já ouvi Zambujo elogiando o disco solo do Marcelo Camelo em entrevistas, o que mostra o quanto está por dentro do que é produzido por aqui também.

Mesmo que não tenha ligação tão forte com Portugal quanto eu, recomendo que vá atrás dos discos deste extraordinário cantor, que, com sua voz, consegue me transportar ao Alentejo, terra de meu avô. O seu Joaquim, que embora não esteja mais por aqui, tanto me orgulha e está tão presente em mim.


 
António Zambujo interpretando 'Zorro', tema de seu último álbum, Guia


Por Ricardo Pereira

domingo, 5 de dezembro de 2010

Rock/pop espanhol - parte dois

Bom dia! Aliás, para os tricolores - Nense! - de plantão, hoje pode ser um dia muito especial. Vamos torcer!

Voltando à música. Seguem mais duas canções compostas por artistas da Espanha.

A primeira, "La cafetera", é da banda The New Raemons. Lindos violões, voz bem colocada e simplicidade a serviço de uma melodia ensolarada. Eu adoro.


A segunda, "Cuando el ángel decida volver", do grupo Lapido - sobrenome do cantor e compositor José Ignacio Lapido -, também é um achado. Um climão à Clash, instrumental competente e as distorções de guitarra mais bonitas que eu ouvi ultimamente.


Divirta-se!

Por Hugo Oliveira

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Rock/pop espanhol

Beleza? Enquanto a "Dona Inspiração" não pinta por aqui, um pouco de inspiração alheia, oriunda da Espanha - mais precisamente, da cidade de Toledo.

O nome do grupo é The Sunday Drivers. Apesar do país de origem, eles cantam em inglês. Som? Uma mistura de indie, power pop e coisas que você gostaria de ouvir no Ipod, num dia ensolarado. Quer valer quanto que a música abaixo vai te conquistar nos primeiros segundos?

Uma última informação: a banda já não existe mais. O último show aconteceu no dia 17 de julho deste ano, no Festival Internacional de Benicàssim, o FIB.

Eu estava lá... Mas não vi. Arrependimento demais.



Por Hugo Oliveira

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Woody

Fiquei sabendo do aniversário de Woody Allen através deste blog – na verdade, por causa do ótimo texto postado pelo Ricardo. Minha relação com ele também é forte. Gosto de quase tudo o que foi levado à telona através das mãos mais nova-iorquinas do cinema. Sim, porque ao menos para mim, não existe nada mais Nova Iorque do que Woody. Não conheço a cidade. Minhas referências? Greenwich Village, C.B.G.B, 11 de setembro, Empire States, Chinatown, pré-punk, Broadway, Brooklyn, New York Times e, mais recentemente, Strokes. E desde sempre, Woody.

Engraçado. O baixinho de óculos de aros grossos, sempre ranzinza, sempre hipocondríaco, me faz pensar na minha mãe. “Eu odeio esse cara”, ela sempre diz quando vê algo que faz alusão a ele... Ou aos filmes que ele fez. A primeira vez que me deparei com um longa de Woody eu ainda morava na casa de minha avó – a atual residência em que vivo estava em construção. “Tudo o que você queria saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar”, de 1972. Deve ter sido uma reprise, no final dos anos 80. Eu pensava. “Sexo? Caramba! Que coisa... Estranha”. Não devo ter entendido nada – principalmente em relação à cena dos espermatozóides, que hoje, é a minha predileta –, mas uma imagem grudou: a teta gigante atacando os seres humanos com jorros de leite.

Das tetas às tretas. Às tretas emocionais – horrível isso... Mas não resisti. Um punhado de anos depois, já fascinado de forma séria pela sétima arte, eis que dou de cara com Woody, novamente. Ou melhor, com Mickey Sachs, personagem do cineasta – sim, ele também atua em seus filmes –, ex-marido de Hannah, protagonista do filme “Hannah e suas irmãs”, lançado em 1986. Paixão à primeira vista. Ou angústia ao primeiro complicador emocional. E não tenha dúvidas: eram vários complicadores. Confusão, medo, amor, ódio... Tudo “junto e misturado”, igualzinho a esse negócio fofinho e arrombador chamado vida.

Depois disso, vários filmes passaram pelo meu DVD e pelos cinemas que visitei. A maioria deles ficou por aqui, indo da cabeça ao coração ininterruptamente, como se eu fosse o pinball predileto do garoto “cego, surdo e mudo” cantado pelo grupo de rock The Who em seu mais emblemático trabalho, “Tommy”.

Tommy can you hear me?
Can you feel me near you?

Mother:

Tommy can you feel me?
Can I help to cheer you?

Voltando à vaca fria: chega, certo? Já deu para sacar que o cara faz a minha cabeça. E muito. Os títulos que mais gosto estão todos no texto abaixo, do Ricardo, descritos de forma simples e direta. Mesmo assim, não se deixe levar pelas impressões dele. Ou pelas minhas. Assista aos longas. Tire suas conclusões. Reflita. “Se fode aí”.

Por coincidência, ontem, ao entrar no banheiro para tomar um banho, levei comigo uma edição da “Bravo!”, publicação nacional sobre cultura. Um dos textos inclusos na revista era assinado por outro cineasta, Domingos Oliveira, do Brasil. Era um tipo de carta ao diretor nova-iorquino. Falava sobre o poder de Woody, sobre o talento dele. Além disso, também tecia comentários, leves, quanto ao novo filme do colega americano, na época, “O sonho de Cassandra” – 2007. O texto terminava do mesmo jeito que são finalizadas as correspondências entre velhos amigos. Com afeto.


Parabéns, Woody
E obrigado por tudo.

Do amigo Hugo Oliveira





As atrizes Scarlett Johansson e Penélope Cruz, no filme "Vicky Cristina Barcelona": quem precisa de comprimido azul?



Allen

Hoje, Woody Allen faz 75 anos. É o meu cineasta preferido. Que me perdoem Almodóvar, Tarantino, Bergman, Scorsese, Lynch e Eastwood, outros favoritos por aqui, mas nenhum outro diretor conseguiu tantos filmes geniais e que mexessem tanto comigo quanto Allen.

Muitos o consideram repetitivo e até entendo este argumento. Realmente, vários de seus filmes passam pelo protagonista classe média, geralmente com algum pendor artístico, problemas emocionais, em crise, buscando um sentido para a vida. O que estes detratores não entendem é que é exatamente isto que nós – fãs de Woody Allen – procuramos a cada novo lançamento.

Simplesmente porque nenhum outro nos faz rir com tantas tiradas geniais, mas não um riso esfuziante, exagerado. E sim um riso que mal esconde ora uma amargura, ora uma ironia, ora melancolia e até – por que não? – o riso do desespero da falta de sentido da vida.

Não há um filme ruim em sua filmografia, mesmo um Allen menor é melhor do que 98% da produção cinematográfica atual.  Manhattan (1979) é o meu preferido, devo ter assistido, sem exagero, umas quinze vezes, linda fotografia, trilha sonora perfeita, uma Nova York idealizada, é um compêndio sobre as relações humanas, sobre o quanto somos todos tão complicados. A cena de Isaac Davis listando o que faz a vida valer à pena, terminando citando o rosto da mulher amada, é espetacular.

Annie Hall (1977), traduzido toscamente no Brasil como ‘Noivo neurótico, noiva nervosa’, é top 3 na minha lista de ‘filmes de relacionamentos’. Cenas antológicas, ousadias narrativas – ainda mais se levarmos em conta o ano de lançamento -, é um clássico com C maiúsculo. Em qualquer época da humanidade vai haver casais que se identifiquem com Singer/Annie.

Desconstruindo Harry (1997) é outro que adoro, principalmente por tratar de forma brilhante da construção literária. Zelig (1983) e Poucas e Boas (1999), falsos documentários geniais, este último com atuação perfeita de Sean Penn. Seus diálogos com Dostoievski em Crimes e Pecados (1989) e Match Point (2005) beiram a perfeição, filmes irrepreensíveis. Amo a fase bergmaniana, Interiores (1978) é deslumbrante, pesadíssimo, mas espetacular, um filme que considero subestimado em sua carreira. Outro pedaço de perfeição é Hanna e suas irmãs (1986), um filme mais “aberto” (não me perguntem), com excelentes atuações e citação de meu poema preferido de e. e. Cummings. A volta ao passado de A era do rádio (1987), o exercício sublime de metalinguagem em A rosa Púrpura do Cairo (1985), o ousado e perfeito Memórias (1980), a agilidade e roteiro perfeito de Tiros na Broadway (1994).

Enfim, são filmes que mudaram – e continuam mudando – a minha vida, pois não canso de revê-los e, cada vez que os assisto, uma nova cena, um novo diálogo, ou os mesmos deslumbramentos de sempre iluminam a minha vida, trazendo-me um pouquinho de sentido a essa existência absurda. O sentido que estes personagens, como amigos de uma vida toda com quem compartilho minhas angústias e inquietações, tanto procuram. 

Por Ricardo Pereira
Play it Again, Woody