"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Resenha - The King of Limbs, Radiohead

  
Mandando a coerência às favas, vou tentar também minha análise precipitada do novo disco do Radiohead, The King of Limbs.

Antes, algumas considerações. Considero o Radiohead a banda mais importante do mundo hoje. Nos últimos dez anos, é fácil a banda que mais ouvi. Nos últimos cinco, talvez só perca pra o Wilco. Ontem, conversando com meus amigos Hugos (Bastos e Oliveira), comentei que temia não ter senso crítico quando o assunto era Radiohead, que amava qualquer coisa que eles lançassem. Prefiro pensar que não é assim. Mas saiba que há o risco de você ler uma análise de um desses idiotas que acham que é o disco do ano antes mesmo de o mesmo ter sido lançado...

Outra, amo o álbum solo do Thom Yorke, The Eraser. Considero esse cara um gênio e, junto com James Murphy e Steven Ellison, um dos que melhor trabalham com a eletrônica a favor das canções. As batidas certas na hora certa, criando climas e sensações indescritíveis. E muitos andam chamando The King of Limbs de The Eraser 2, o que pra mim é um elogio.

Não adianta ouvir qualquer novo trabalho do Radiohead se não tiver absorvido a ruptura pós Kid A. The Bends e Ok Computer são dois dos melhores discos que ouvi na vida. O primeiro até hoje me acompanha em momentos de desabafo emocional, adoro a capa, as letras, as guitarras, a urgência. É o tipo de disco que deveria ter feito Bono Vox mudar de carreira e Chris Martin ter virado médico ou advogado antes de ter cogitado formar uma banda. Ok Computer é um dos melhores discos conceituais da história do rock e envelhece muito bem, cada vez mais atual e relevante. Quem me conhece desde a época sabe o impacto que o Kid A teve para mim desde seu lançamento. Foi dos grandes momentos de deslumbre da vida do Ricardo, talvez só comparado à descoberta dos Beatles na infância/adolescência ou ao conhecimento das obras de Borges, Saramago e Dostoievski. A partir daí, o Radiohead passava de uma banda de grandes canções para uma banda ‘construtora de mundos’, a partir da manipulação de climas e atmosferas. Muita gente – meu irmão, por exemplo - demorou a absorver isso, alguns – meu pai, acho - não engolem até hoje e outros – meu companheiro de blog, Hugo, é um deles – reconhecem o valor e a importância, mas não escutam, não entram no mundo proposto.

Ouvir o Kid A pela primeira vez foi como deve ter sido para os ouvintes da época, os quais tanto invejo, ter escutado o Revolver quando de seu lançamento. Excitação e orgulho de presenciar uma banda atingir outro patamar. Se insisto sempre na comparação Beatles-Radiohead é porque, e já falei isso por aqui, eles são os meus Beatles. A banda que espero, no futuro, orgulhoso e nostálgico, ver meu filho descobrir em meio a minha coleção de discos.

Após este enorme preâmbulo, vamos ao disco. John Lennon, em sua última entrevista, afirmou que não queria grupos de elite os seguindo, queria se comunicar da forma mais ampla possível, imaginava ser essa a ideia do rock and roll. Penso que Thom Yorke almeja o contrário, pois os discos do Radiohead, cada vez mais, exigem atenção, paciência e um cuidado por parte dos ouvintes que o ritmo frenético dos tempos modernos parece negar à maioria das pessoas.

O disco é claramente dividido em duas partes. As quatro primeiras, mais urgentes, e as outras quatro, mais calmas, contemplativas, que talvez agradem mais aos admiradores tradicionais.

A primeira do disco, ‘Bloom’, começa com timbres fantasmagóricos e batidas quebradas, desapontando de cara os que vivem a esperar uma ‘volta às raízes’ da banda. Thom Yorke entra trazendo um pouco de humanidade e lá pelos 2:50 a música ‘abre’, encantando com a entrada de cordas e mais efeitos. Depois vem ‘Morning Mr. Magpie’, com mais minimalismo eletrônico, um Thom Yorke mais rascante e um dos destaques do disco (na verdade da banda), os baixos maravilhosos de Colin Greenwood. A guitarra praticamente ‘marca’ o ritmo das batidas. O vocal sussurrado do final é uma beleza! ‘Little by Little’ vem sendo chamada de o baião do Radiohead. Não chega a tanto, mas há certo clima ‘pra cima’ (em se tratando deles, não se esqueça) de certa forma surpreendente nessa primeira parte do álbum. A parte dos 2:20 aos 3:03 explicam o porquê de eu amar tanto esta banda mais do que qualquer palavra que eu tente aqui. ‘Feral’ é um instrumental nervoso, torto, eletrônico, com samples de vocais servindo de instrumento e mais entre tantos efeitos que fecham o primeiro segmento do álbum.

A segunda parte do disco é mais palatável, principalmente aos que nunca se adaptaram à transformação sofrida pela banda. E começa justamente com a música de trabalho, ‘Lotus Flower’, uma canção perfeita, com uma das melhores letras do disco. A dancinha do clipe acaba ofuscando o quão boa é essa música, a banda está impecável, há elegância e sensualidade, tudo está no lugar certo. E chegamos a ‘Codex’, para muitos fãs, o grande destaque das primeiras audições. Vejo beleza, há emoção, mas ainda não me ‘pegou’. Lembra demais ‘Pyramid Song’, a canção que menos gosto de Amnesiac. Pode crescer com o tempo. Quem sabe de minha fixação pelo número sete pode imaginar o quanto fiquei feliz de a 7 ser ‘Give Up the Ghost’, uma canção delicada, de bonita melodia, a única que eu conhecia antes de o disco ser lançado. Levada ao violão, com a voz de Yorke forte, reinando acima do coro de ‘don’t hurt me’ e de um clima bucólico, onírico, me encanta a cada audição. A última, ‘Separator’, é a minha preferida por enquanto, possui tudo que me encanta no Radiohead. Adoro a bateria, a linha de baixo, as imagens da letra, a beleza de guitarra que entra aos 2:32, o jeito stipeano de Thom Yorke cantar ‘wake me up, wake me up...’. Enfim, um fecho perfeito para o álbum ou para a primeira parte dele, como muitos especulam.

De mais importante nisso tudo, pessoalmente falando, o lançamento desse disco me fez sentir-me vivo como não me sinto há algum tempo, constituindo uma das semanas mais interessantes da minha vida. Na segunda-feira nem imaginava que estava pra sair um disco novo do Radiohead, não esse mês, não agora. De repente veio a notícia, a capa, me habituar ao nome, sabendo que The King of Limbs entraria para meu vocabulário emocional tanto quanto Kid A, In Rainbows, Construção, Ventura, Strange Days, Rubber Soul ou Automatic for the People são tão comuns quanto meu nome ou o nome dos meus amigos. Depois ouvir, ficar empolgado e tão encantado quanto ficavam o Ricardo menino ou adolescente ao descobrir um disco. Ver que ainda posso sentir isso depois de tanto tempo, de tantas frustrações e desilusões é mais importante do que qualquer outra coisa na minha vida hoje.

Por Ricardo Pereira

8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Não tenho muito a acrescentar além do comentário que fiz sobre o texto de ontem. Estou chapado com o disco! Ouvi tanto nos últimos três dias que já dá pra dizer que perdi a conta.
    Embora goste de tudo que já ouvi do Radiohead - de Pablo Honey a The Ghost of Limbs -, não tenho uma ligação emocional tão forte com o Kid A (não como você diz ter) quanto tenho com o OK Computer e o In Rainbows. Posso dizer que The Ghost tem grandes chances de formar um trio com esses outros dois.

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  3. É, o 'Kid A' pra mim é especial mesmo. Talvez esteja entre meus cinco discos preferidos de todos os tempos. Mas, analisando racionalmente, 'In Rainbows' é o disco que melhor equilibra todas as vertentes da banda. Somos privilegiados de termos conseguido assistir a este disco inteiro ao vivo!

    E concordo com você em relação ao novo, cresce absurdamente a cada audição.

    Abs

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  4. olhe, se é "o baião do radiohead" eu não sei, mas certamente as quatro primeiras faixas têm um quê de nordeste. os compassos são 4/8, bem diretos, as síncopes e contratempos, as linhas melódicas e harmonias têm tudo a ver com o que se chamaria de música nordestina. "bloom' é uma toada de cavalo marinho. ‘Morning Mr. Magpie’ e ‘Little by Little’ têm mesmo algo de baião. "Feral" é um coco! podia ter sido feito pela Nação Zumbi. só a partir de "Lotus flower" é que o disco volta a ser mais anglo-saxônico e diatônico, e 4/4.

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  5. opa muito bom! fiz uma "resenhazinha" no meu blog tambem!!! dá uma olhada lá
    http://discosnovos.blogspot.com/

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  6. Gabriel Macarrinha16 de maio de 2011 16:41

    Resenha muito bem elaborada, música a música. Ainda to conhecendo este disco, ainda nem mesmo o baixei, devido uma sequência de shows, eventos e o trabalho no gatil. Curti algumas canções no blip.fm, me lembraram o Kid A tb, tá certo que não marcaram tanto qto o mesmo devido a guinada que a banda deu com o disco mais antigo, mas embora o The Bends seja meu preferido (to até querendo importar o LP) curto essa atmosfera ambiental eletrônica proposta nos últimos trabalhos. Vou baixar depois e comparar minha opinião com o artigo canção por canção. Parabéns pelo trabalho, post muito bom.

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  7. Muito bom o artigo. Li ouvindo The King of Limbs. Concordo com o início dele: é difícil ser isento sobre os discos do Radiohead quando se gosta tanto do trabalho da banda. O que acho bacana neles é o que alguns acham ser um defeito: o fato de ser necessário ouvir várias vezes seus discos, ir se adaptando a eles, fazendo com que as músicas se incorporem ao nosso inconsciente.

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  8. Obrigado, Cledes. E por falar nisso, o disco só cresceu de lá pra cá, e as versões do From the Basement são ainda melhores!

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