"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Night Thoughts ou Suede e a emoção da perseguição


Um dos grupos britânicos mais interessantes da década de 90, o Suede, que desde o retorno aos palcos, em 2010, vem fazendo ótimos shows por todo o planeta, também mostra que gravar discos inesquecíveis continua sendo um dos objetivos do conjunto.

Os dois primeiros trabalhos do grupo – ainda com o brilhante guitarrista Bernard Butler –, Suede (1993) e Dog Man Star (1994), são duas peças importantes em qualquer discoteca básica de rock moderno que se preze. O álbum seguinte, Coming Up (1996), já com novos integrantes, não apenas manteve o nível de qualidade, como também alcançou um sucesso comercial inédito aos parâmetros da banda, tornando-a mais conhecida fora da Inglaterra. Daí em diante, ladeira abaixo... Mas sempre com elegância e bom gosto.

Seguiram-se discos menos inspirados, como Head Music (1999) e A New Morning (2002), o que desembocou na decisão do grupo em encerrar as atividades em 2003, após o lançamento da ótima coletânea Singles. Era o fim da banda que soube misturar David Bowie e The Smiths com maestria e originalidade, empacotando o resultado numa embalagem chamativa para garotos e garotas que davam boas-vindas ao segundo milênio, mas baseavam a trilha sonora da época em Glam Rock, Post-Punk e uma pitada do hedonismo herdado das raves e da decadência fin-de-siècle.

Sete anos depois, o grupo retorna com uma série de apresentações elogiadíssimas pela imprensa, incluindo aí uma passagem pelo Brasil, no Planeta Terra Festival, em 2012. O primeiro disco pós-retorno, Bloodsports, é lançado em 2013. Se não consegue chegar ao nível dos primeiros álbuns, o trabalho mostra um conjunto criativo e fiel a suas raízes, defendendo uma coleção de boas canções com o tesão e o amor de outrora.

Eis que chegamos a Night Thoughts, lançado em janeiro deste ano. Confesso que ficaria até feliz em repetir as palavras elogiosas, porém contidas, utilizadas ao citar o disco anterior, mas não é o caso. O mais recente álbum do Suede é um trabalho poderoso e dramático, belo e sombrio. Como se a banda recuperasse o espírito da primeira metade dos 90 e o transportasse à atualidade, sem arestas a podar ou concessões a fazer. Um disco para não perder a fé no rock, mesmo que a vida te puxe para outras direções, prazeres e prioridades.

O começo climático com “When You Are Young” parece mesmo com a música de abertura de algum filme. A voz de Brett Anderson, vocalista do conjunto, aparece lá pelo meio da faixa, e emociona. Variando entre passagens fortes e falsetes estilosos, Brett segue pontuando os trechos da curta canção com intensidades diferentes, mostrando que um bom cantor faz a diferença.

A dobradinha que vem em seguida, formada por “Outsiders” e “No Tomorrow”, é de chorar. A primeira, de instrumental mais sombrio, versa aparentemente sobre um casal que, apesar da desolação relacionada à vida, segue acreditando naquilo que se tem no momento – neste caso, o amor; a segunda, com uma solar introdução de guitarra, é um convite ao enfrentamento das dificuldades e tristezas, entendendo-se que não existe amanhã, e a vida é agora.

“I Don’t Know How To Reach You” mostra a pegada mais psicodélica do Suede, com um bonito refrão e uma letra sobre os problemas de relacionamento com uma mesma pessoa, mas em diferentes fases. Já “What I’m Trying To Tell You”, que vem em seguida, é o ponto alto do álbum. Por meio de uma base dançante, Brett e os companheiros de banda vão saracoteando como um bloco de carnaval britânico, cujo mestre-sala é Morrissey, e a porta-bandeira, David Bowie. Uma homenagem às grandes influências do conjunto e ao próprio caminho trilhado pelo grupo. Uma letra apaixonada sobre alguém que não sabe como demonstrar o seu amor... Por conta de tanto amor.

O disco continua com duas baladas dramáticas, “Tightrope” e “Learning To Be”. Talvez, por conta de aparecerem em sequência, elas fazem com que o álbum perca embalo e urgência. De qualquer forma, quem surge em seguida é “Like Kids”, um rock que coloca o álbum de volta aos trilhos. A próxima canção, “I Can’t Give Her What She Wants”, também é uma faixa lenta, mas consegue se destacar tanto pela forte letra sobre suicídio quanto pelo instrumental pungente.

Night Thoughts termina fazendo alusão ao início do álbum. Se a obra começa com “When You Are Young” – quando você é jovem –, ao final, temos “When You Were Young” – quando você era jovem –, que vem emendada com “The Fur & The Feathers”.  A parte final do disco junta as peças do quebra-cabeça: estamos diante de um trabalho conceitual, com canções que dialogam entre si a respeito dos relacionamentos, do tempo, da vida e da morte.

Com seu mais novo disco, o Suede mostra que, apesar da passagem dos anos, continua buscando novas e boas canções, entendendo que ainda tem fogo a queimar e conquistas a efetuar. Se a banda voltou por grana, aproveitando o bonde do revival? É bem provável. Mesmo assim, o grupo segue excitado com as possibilidades e com, como canta Brett na última faixa do álbum, “a emoção da perseguição”.






Por Hugo Oliveira

2 comentários:

  1. Grande resenha desse grande e surpreendente álbum. Abs.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado por ler, Vitor!

    Ass: Hugo

    ResponderExcluir