"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

segunda-feira, 5 de março de 2012

nada devemos ao fado (ou medo de amar)

“quando eu perdi você
ganhei a aposta
não força não força
não força não força”

Desilusão. Desalento. Destruição. A trinca de dês que, cronologicamente, sintetiza suas reações após o fim. Nada muito diferente da maioria dos términos de relacionamento.

Um golpe mais profundo, no entanto, para alguém que insiste em acreditar no amor com a mesma fé cega dos que creem em astrologia ou dos que duvidam da chegada do homem à lua.

Havia modificado sua vida, ajeitado tudo em função de seu par. Sem perceber, foi absorvendo a escuridão, o peso que a circundava e, por mais que houvesse uma ponta de alívio, se computássemos a soma dos dês, o fim teria como produto o Desperdício.


“sozinho eu vou ficar melhor
só por mim, eu vou ficar melhor”

Uma auto-degradação diluída numa satisfação ilusória em estar só. Transformou seu canto em esconderijo paradisíaco para sua solidão. Ali, fechado, isolado do mundo, acreditava possuir tudo de que necessitava: livros, discos, filmes, um tanto de álcool, o olhar atento e vigilante de Borges, Machado, Fiódor, José e Rosa; e se, vez por outra, a tristeza quisesse entrar... não tem nada não, havia seu violão.

Assim, ajudado por seus fantasmas, a solidão parecia-lhe confortável, agradável, até. Estava tão voltado para si mesmo, que, quando saía ou pensava na possibilidade de estar com alguém, era a si mesmo – ou o que acreditava ter se tornado – que procurava.

Buscava, em lugares de divertimento, uma mulher que parecesse entediada com a vida; que gostasse mais de livros do que de gente; que se encontrasse, fechando-se; que acreditasse nos mesmos valores; quem sabe, até carregasse em seu corpo também, a imagem de sua banda preferida. Como na “carta que não foi mandada”, era o espelho que procurava encontrar.


“quando me vi tendo de viver comigo apenas
e com o mundo
você me veio como um sonho bom
e me assustei
não sou perfeito
eu não esqueço”

A vida, no entanto, possui seus perigos e também seus encantos. E resolveu, abruptamente, retirá-lo de sua zona de conforto. De uma hora para outra, não estava mais só. “Uma flor nasceu na rua!”, iludindo a polícia, rompeu o asfalto.

A possibilidade de aparecimento do amor, até então refugiado abaixo, mais abaixo dos subterrâneos, trouxe consigo os medos: da vida, da dor, de ser feliz, das diferenças, d“estar por fora, medo andar por dentro do seu coração”.

Paradoxalmente assustado com a felicidade, pergunta: “E agora, José?”.

Saramago, porta-voz de tanta beleza, mais confunde do que esclarece, acena com sete luas e sóis, do mais bonito e dolorido amor. Enciumados com a pergunta dirigida, começam a falar ao mesmo tempo: Machado, com seu olhar ferino, ironiza sua situação; Borges admira-se com o encantamento pelo reverso do espelho e alerta para a inevitabilidade dos labirintos do amor; Dostoievski parece duvidar de sua calma, aponta uma tendência ao exagero e prevê turbulências em sua abertura para o mundo.

Somente Guimarães Rosa, tão sábio, versado em enredo e desenredo, nada diz. Apenas observa nosso homem em seu falso conflito – na realidade, inexistente – e relembra Drummond. Sabe que chega um tempo em que a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação. E, em seu silêncio, consegue acalmá-lo com a certeza de que a poesia deste momento inunda sua vida inteira.


Por Ricardo Pereira

6 comentários:

  1. Magnífico. Muita sensibilidade nesse texto. Quem lê se encaixa no contexto e se coloca no lugar do "personagem". Através disso consegue realmente visualizar a situação acontecendo, como em um filme. Apenas grandes narrativas conseguem me trazer tamanha concentração e despertar dessa forma minha imaginação. Parabéns Ricardo! Ah, e bela escolha ao colocar o trecho de Teatro dos Vampiros, uma das melhores letras da Legião.

    Abraço!

    Pedro Luís.

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  2. Obrigado, Pedro!

    Fico feliz quando meus textos conseguem atingir as pessoas dessa forma!

    Grande abraço

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  3. Agora descobri o seu segredo... Grande Tino!

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  4. Andou lendo os pensamentos de alguém?!

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