"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

quinta-feira, 10 de março de 2016

Audições Talk About The Passion

Responsáveis pelo blog cultural Talk About The Passion, o jornalista Hugo Oliveira e o professor Ricardo Pereira vão organizar no domingo, 3 de abril, na galeria de arte Pro-Cidade, no centro de Angra dos Reis, um evento inovador e também ambicioso, culturalmente falando: é o Audições Talk About The Passion, que tem como objetivo a apresentação de um disco clássico de determinado artista, através de histórias, música ao vivo e discotecagem.

A intenção é oferecer ao público presente uma imersão profunda relacionada ao artista e ao disco homenageados. A primeira edição do “Audições” será dedicada ao disco Grace (1994), do cantor, compositor e guitarrista americano Jeff Buckley. Grande nome – e talvez a grande voz – musical da década de 90, a carreira do artista foi encerrada abruptamente, quando ele morreu afogado em 1997. Grace segue como um disco clássico, influenciando as novas gerações de músicos e mostrando que o talento de Buckley não foi em vão.

O evento, que será iniciado às 17h, vai funcionar da seguinte forma: a abertura será feita pelo professor Ricardo Pereira. Bacharel em Letras pela UFRJ, ele vai apresentar um breve histórico do artista e informações sobre o processo de gravação de Grace, finalizando com observações sobre os últimos dias de vida de Buckley. Além disso, Ricardo também vai efetuar intervenções ao longo de todo o projeto.

Em seguida, o músico internacional Miguel Bestard, de Montevidéu, no Uruguai, vai oferecer uma apresentação musical intimista e exclusiva. Ele tocará o disco Grace na íntegra, na ordem como o álbum foi gravado, munido apenas de voz e guitarra. Considerado um dos maiores guitarristas de seu país, e em processo de ascensão profissional no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, Miguel também vai oferecer seu depoimento como grande fã do trabalho de Buckley.

Por fim, o jornalista e discotecário Hugo Oliveira, pós-graduado em Jornalismo Cultural pela Estácio de Sá, finaliza o evento com uma discotecagem especial. No repertório, canções e bandas que influenciaram Jeff Buckley, além de músicas de artistas que foram influenciados pelo músico americano.

O Pro-Cidade fica localizado na Avenida Júlio Maria, nº 16, no Centro. No dia do evento, serão comercializados no local bebidas e algumas opções de lanches. A classificação etária é 18 anos. “Com o ‘Audições’, estendemos ainda mais a atuação do blog Talk About The Passion, que também já oferece um evento dedicado à exibição de documentários ligados à cultura pop. E assim, com ambição intelectual e humildade, vamos tentando transformar a cidade em que vivemos num lugar melhor, criando um público de arte ainda mais crítico e informado”, declara o jornalista Hugo Oliveira, um dos criadores do evento.

O álbum Grace, de Jeff Buckley, será o primeiro disco analisado na série de eventos Audições Talk About The Passion


Importante: ficou interessado, caro leitor? Entre em contato com a gente! Escreva o seu endereço de e-mail nos comentários desta postagem e receba maiores informações sobre o "Audições" - as vagas são limitadas.

terça-feira, 8 de março de 2016

A natureza é selvagem

Acompanhei com atenção às notícias relacionadas ao desaparecimento e à busca de Rian Brito, neto de Chico Anysio. A história começou a se desenrolar no dia 23 de fevereiro, quando o jovem de 25 anos, ao ser deixado na frente da autoescola que cursava, faltou à aula e deixou a família em estado de alerta ao não dar mais nenhuma informação sobre seu paradeiro.

A apreensão inicial dos familiares e amigos se transformou em constatação: Rian havia sumido. Ele deveria ter ligado para a mãe, Brita Brazil, na intenção de que ela o buscasse na autoescola, mas não houve ligação – o celular de Rian estava em casa. Após 24 horas de espera, a negativa de um contato sequer partindo do filho fez com que Brita fosse à 15ª DP. No dia seguinte, Nizo Neto, o pai, procurou uma delegacia especializada para descrever o problema pelo qual a família passava. Seguiu-se o drama; formou-se a pergunta. Onde está Rian?

Choveram publicações na internet, divulgando o desaparecimento do jovem e também buscando quaisquer informações a respeito da localização dele. O pai, numa gravação veiculada num programa televisivo de grande audiência, fez um apelo emocionado por pistas que levassem ao filho. Sobrava esperança, mas faltavam dados concretos. Por pouco tempo...

A imagem de Rian saindo do Shopping Fashion Mall, em São Conrado, no Rio, para em seguida dar sinal a um táxi e adentrar o veículo, chegou a mim através de algum telejornal noturno. Na filmagem, realizada no dia do sumiço, às 13h20, o jovem caminha aparentemente tranquilo à saída do shopping, sozinho. Em seguida, acena com a mão direita para o táxi que passa, um Chevrolet Spin. E entra. O destino é desconhecido. Ao menos, ainda era.

Em entrevista ao RJTV, no dia 26 de fevereiro, Nizo falou sobre o desaparecimento do filho. “Tudo indica que não encaminha para sequestro ou morte. Ele gosta de fazer umas trilhas, gosta de passar um dia inteiro no mato às vezes, é uma coisa que ele curte. Mas já são três dias. Mesmo assim, ele foi para a aula, não entrou, sacou algum dinheiro, não se sabe a hora, mas foi nesse dia, no banco."
Estaria Rian querendo um momento de tranquilidade, ansiando por ficar longe de tudo –e de todos – por alguns dias? Acredito que este é um desejo comum a muitas pessoas, principalmente em determinadas fases e situações da vida. Mas não avisar sobre o paradeiro, estendendo o momento por mais de uma semana, a ponto de a família procurar pela polícia e apelar aos meios de comunicação e às redes sociais? Algo estava errado.

Vocalista da banda Call It Fornication, um grupo dedicado ao repertório do conjunto Red Hot Chili Peppers, Roko Souza falou à imprensa sobre o neto de Chico Anysio, já que o próprio havia integrado o grupo durante dois anos em meio, como baixista. Em entrevista ao site Ego, ele afirmou que Rian passou por tratamento psicológico, tendo inclusive sido internado em uma clínica.
"Nos anos que ele tocava com a gente, o Rian estava muito feliz. Ele morava no Rio e pegava vários ônibus para nos encontrar para tocar com a gente nos shows. Nunca demonstrou nenhum problema", lembrou o vocalista da banda. Rian deixou o conjunto há dois anos, e o contato entre ele e o grupo foi rareando. Em 2015, a mãe do ex-baixista procurou Roko, que declarou ao site o que aconteceu a partir disso.

“Ela pediu para levar o Rian no nosso show, em São Paulo. Quando eles chegaram, Rian estava irreconhecível. Trazia uma feição vazia. Parecia estar com depressão. Não assimilava as coisas em volta, não lembrava das brincadeiras que fazíamos e nem reconheceu o dono do bar no qual tocamos muitas vezes juntos. Parecia não estar muito bem. A mãe dele mesmo nos contou que ele havia sido internado para tratamento psicológico."

Procurado pelo mesmo veículo de comunicação, na intenção de oferecer a sua versão do que foi contado pelo vocalista da Call It Fornication, Nizo Neto esclareceu que o filho era adepto da terapia, mas que não apresentava nenhum problema psicológico. "Ele fazia terapia normalmente, como eu faço. Nada demais. Ele estava muito bem. Fazia faculdade, aula de autoescola. Normal."

Praia do Paulista, município de Quissamã – Norte Fluminense. No domingo, 28 de fevereiro, um rapaz caminha pelas areias da praia quando avista algo à frente. Chegando mais perto, ele vê que se trata de documentos pessoais, um cartão bancário, uma camisa e um par de chinelos. Ele leva o que encontrou para casa.

Dentro de sua residência, resolve assistir ao televisor. O apresentador de um programa jornalístico fala sobre as novidades do caso Rian: as imagens das câmeras de segurança da Rodoviária Novo Rio mostram que ele entrou num ônibus com destino a Quissamã, sozinho, numa data indeterminada a partir do desaparecimento. O portador dos pertences resolve verificar a identidade encontrada por ele, e vê as que a imagem do documento bate com o que ele viu no telejornal. Decide que no outro dia, segunda, irá até a delegacia mais próxima, para entregar os objetos encontrados à polícia.

Com fortes indícios de que Rian poderia estar naquele local, policiais e bombeiros iniciam as buscas no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e em pousadas nos arredores. Na quinta-feira, 3 de março, numa região conhecida como Vala da Lagoa Preta, dentro do parque, um corpo sem vida é encontrado.

O tenente Amaro Garcias, coordenador de Defesa Civil de Quissamã, foi o primeiro a chegar ao local. “É ele. O local é distante, com muita areia, mas identificaram por causa da pulseira e da correntinha que ele estava usando. Pelas características, o corpo é dele. Com certeza ele morreu no mar", declarou o tenente ao globo.com.

De alguma forma, minhas suspeitas levavam a um desfecho deste tipo. Assim que li as informações divulgadas na mídia e assisti aos apelos de familiares e amigos pelas redes sociais, lembrei-me da história de outro jovem. Chris McCandless, um rapaz de família rica do Leste americano que largou tudo, viajou para o Alasca e acabou morrendo de inanição. A tocante – e verdadeira – trajetória de Chris foi contada no ótimo livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer. Além disso, a história também ganhou uma versão cinematográfica em 2007.

Para além de teorias exóticas ou generalizações injustas tanto à família de Rian quanto à memória do jovem, existe uma forte curiosidade – ao menos de minha parte – àqueles que decidem fugir da “vida normal” em busca de algo maior, que dê sentido à existência. Parecia-me que se tratava exatamente disso: um jovem que resolveu se afastar das preocupações mundanas, em busca do que é realmente essencial.

Mas agora, ao escrever o final deste texto, leio informações divulgadas pelo jornal Extra em que a mãe de Rian fornece dados importantes. Ela revela que ele tomava chá de erva alucinógena, do tipo Ayhuasca, numa seita intitulada Porta do Sol. O texto é longo, e inclui a carta exclusiva que Brita enviou ao jornal, além da opinião da dirigente-fundadora da seita no Rio. Sugiro que leia e tire suas conclusões – http://goo.gl/P8guVz.

Por aqui, permaneço com muitas dúvidas e algumas constatações. De qualquer forma, a natureza é selvagem, e os seres humanos, complexos. Dessa mistura, nascem histórias doloridas como a de Rian, onde não sabemos se existem culpados ou vítimas. Apenas que elas machucam.

Precisamos falar sobre Rian, mas não superficialmente. Respeitando a dor da família e dos amigos, assim como toda e qualquer religião, o caso abre precedentes à discussão sobre a utilização do chá de Ayahuasca – Santo Daime – para fins religiosos. Não é a primeira vez que a bebida aparece na mídia ligada a fatos negativos, mas também existem centenas de relatos alusivos aos benefícios de quem faz uso.

Livres para escolher, seguimos nossos caminhos.

Esta vida é mesmo estranha.




    
 Por Hugo Oliveira












terça-feira, 1 de março de 2016

Sessões Talk About The Passion apresenta... When You're Strange - A Film About The Doors

Criado pelo jornalista Hugo Oliveira e pelo professor Ricardo Pereira, responsáveis pelo blog Talk About The Passion, o “Sessões Talk About The Passion” é um evento voltado à exibição de documentários e filmes inseridos no universo da cultura pop, com a realização de um bate-papo após cada sessão, entre os responsáveis pela iniciativa e o público.

As sessões acontecem na sala de vídeo do CCTM, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro – no mesmo prédio do Teatro Municipal. O próximo documentário a ser exibido no “Sessões” será When You're Strange (2009), de Tom Dicillo, sobre a banda americana The Doors. A exibição vai acontecer no sábado, 19 de março, às 19h. A Entrada é gratuita, com os ingressos sendo disponibilizados ao público a partir das 17h. Classificação etária: 16 anos. 

Sinopse: When You’re Strange fornece um olhar sobre a banda The Doors, com destaque ao vocalista, Jim Morrison (1943-1971), desde a formação do grupo em 1965, quando estrearam no palco e lançaram o primeiro álbum, até a fatídica morte do cantor, após anos de uso exagerado de álcool e drogas.

Ao longo do turbulento percurso, vemos cenas de arquivo com ensaios, shows e os momentos mais íntimos da banda, incluindo um show em Miami, que resultou na prisão de Morrison, acusado por obscenidade.

Seu amor pelos holofotes, o desejo de se tornar um poeta e seu humor movido a álcool mostram a personalidade do astro, que variava nos altos e baixos, colecionando sucessos, escândalos e fracassos. A música da banda, que encantou toda uma geração, até hoje ainda pode ser escutada em todos os lugares do mundo.




 Por Hugo Oliveira

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Top Five: Raul Seixas

Inspirado pela última edição do Sessões Talk About The Passion, evento que visa à exibição de documentários e filmes ligados à cultura pop, divulgo aqui uma lista pessoal relacionada ao meu “top five” das músicas de Raul Seixas, cuja trajetória é contada de forma competente e bela através do documentário Raul: o Início, o Fim e o Meio (2012), de Walter Carvalho.

“Eu também vou reclamar” – Canção à Bob Dylan incluída no disco Há dez mil anos atrás (1976). Enquanto o instrumental é baseado num Folk Rock pra lá de animado, a letra expõe questionamentos, lamentações e observações sobre o cotidiano de Raul, do mundo e de todos nós. “Dois problemas se misturam / a verdade do universo / a prestação que vai vencer”. Quem nunca?

"Medo da chuva" – Uma quase balada dolorida sobre separação é um dos pontos altos de um disco cheio de grandes canções – Gita (1974). “É pena que você pense que eu sou seu escravo / Dizendo que eu sou seu marido e não posso partir / Como as pedras imóveis na praia eu fico ao seu lado sem saber / Dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver”. Raul Seixas dando um papo reto na esposa, dizendo que já estava em outra.

“Let me Sing, Let me Sing” – Raul apareceu para o grande público com esta música, carta de intenções de um compacto que ainda incluía “Teddy Boy, Rock e Brilhantina” no lado B. Uma mistura improvável de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, Rock e Baião. No mesmo ano de lançamento, 1972, Raul participou do VII Festival Internacional da Canção, defendendo a faixa. E a história se fez.

“Gita” – Um clássico. Uma letra longa e linda, ancorada num instrumental grandioso, que aumenta e diminui nos momentos corretos. O dedo, a mão e todo o resto do hoje escritor de sucesso internacional, Paulo Coelho, pode ser percebido na história contada, sobre alguém, algo, que é tudo e nada ao mesmo tempo. “Eu sou a vela que acende / Eu sou a luz que se apaga / Eu sou a beira do abismo / Eu sou o tudo e o nada.”

“Ouro de tolo” – Além de ser a grande canção de Raul Seixas, é também uma das músicas mais bonitas do Brasil. Um questionamento sobre o sentido da vida e as armadilhas que o conforto e a calmaria podem aprontar para cima da gente. “É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota / Saber que é humano, ridículo, limitado / Que só usa dez por cento de sua cabeça animal / E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial / Que está contribuindo com sua parte / Para o nosso belo quadro social”. Perfeito.





Por Hugo Oliveira


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Jornalismo como redenção

O americano David Carr, colunista do The New York Times por 12 anos, estava diante de um grande personagem: um jornalista viciado em drogas e álcool, pai solteiro de filhas gêmeas que, ao tentar se livrar do vício, encontra diversas dificuldades no meio do caminho, incluindo um câncer. Indo fundo na vida do protagonista daquele que seria seu primeiro livro, descobre que a história era muito mais surpreendente – e tenebrosa – do que imaginara na época.

Na época em que ele passou por tudo isso.

Sim, leitor. David Carr é o próprio personagem de A noite da arma (2012), lançado no Brasil pela Editora Record. Mais do que um livro escrito através de lembranças, que podem ser tanto aterradoras quanto imprecisas, o jornalista recorre a dezenas de entrevistas gravadas com familiares, amigos, ex-dependentes químicos e colegas de trabalho, além de registros médicos e jurídicos, para contar o que se passou na sua vida desde a adolescência até sua entrada no mais famoso jornal dos Estados Unidos.

Acompanhamos um homem talentoso no que diz respeito às letras e às encrencas, que se vê caminhando ao fundo do poço quando a carreira é vencida pelas carreiras, goles e tragos. O jornalista promissor dá lugar ao traficante amador e ao drogado profissional. As oportunidades na mídia começam a rarear; a família, apesar de unida, teme o pior. E então, no meio de toda a destruição causada pelo vício, ele, que já tinha outra parceira, encontra Anna. Ela é linda, loira, traficante, usuária de cocaína e está prestes a entrar nas drogas injetáveis junto com Carr.

O relacionamento dá frutos – a maioria, podres. Afinal, o que esperar de árvores devastadas por tempestades de agrotóxicos e contínuo autodesmatamento? O ser humano, felizmente, é um território fértil. E misterioso. Então, eis que surge no lixão do que resta da humanidade uma flor tímida, pequena. Ou melhor, duas. Flores prematuras, pesando pouco mais de um quilo, com menos de 40 centímetros cada. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas... Mesmo que esteja chapado demais.

A luta de Carr pela sobriedade, por condições mínimas para criar as filhas, é emocionante e dolorida. O jornalista descreve sua busca pela sanidade de forma corajosa e despida de atos heroicos ou passagens cheias de lições de moral. É a história de um homem que não tem escolha. O único caminho a seguir é o da luta, do enfrentamento dos medos, limites e fraquezas. O que lhe resta é o futuro, e este, tem que ser construído no agora.

A trajetória de Carr contada no livro guarda surpresas e passagens tocantes aos leitores que se aventurarem por suas 413 páginas. Ao final, somos presenteados com uma reflexão sobre o impacto que as vidas das pessoas que nos rodeiam – e as responsabilidades inerentes a elas – nos causam. As transformações que devemos executar em nós mesmos são difíceis, mas necessárias. Mudamos para melhor, mesmo que não percebamos que algo realmente aconteceu.

“(...) Eu agora vivo uma vida que não mereço, mas todos nós caminhamos pela Terra sentindo que somos fraudes. O truque é ser agradecido e esperar que essa travessura não termine logo.” – David Carr.



Obs.: assim que terminei o livro, fui procurar informações sobre o paradeiro atual de Carr. Descobri que ele participou, em agosto de 2014, da Festa Literária Internacional de Paraty – Flip, ao lado de outra grande jornalista, Graciela Mochkofsky; fiquei triste ao saber que ele morreu em fevereiro do ano passado, por complicações ligadas a um câncer.


Por Hugo Oliveira




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Erlendur: assassino, detetive e vítima

Conheci o trabalho do escritor islandês Arnaldur Indridason através do livro O segredo do lago (2013), lançado pela Companhia das Letras. A mesma editora já havia colocado nas livrarias brasileiras dois volumes do autor, O silêncio do túmulo (2011) e Vozes(2012), mas antes de todos eles, a Record lançou A cidade dos vidros (2008).

Os quatro livros representam para mim o que há de melhor na atual literatura policial. Ao menos, naquela que eu venho lendo ao longo dos anos. Confesso que não sou um expert no assunto, mas tenho minhas predileções. Destas, Arnaldur e seu detetive, o grande – e deveras humano – Erlendur, estão em primeiro lugar.




Não existem exageros ligados a tiros, mortes e cenas de ação nas aventuras de Erlendur e sua equipe, formada pelos detetives Elínborg e Sigurdur Óli. O andamento das tramas, apesar de ágil, contempla outras nuances, e talvez por isso o universo de Indridason seja tão especial. O passado, tanto nos casos investigados pelo detetive quanto na própria vida de Erlendur, tem total importância nas histórias, e é de lá que emana a força dos livros.

Erlendur tem dois filhos de um casamento fracassado, Eva Lind e Sindri. Ele abandonou a mulher e as crianças, e estas, ao crescerem, tornaram-se adultos problemáticos. Eva é usuária de drogas pesadas e vive se metendo em encrencas; Sindri, um jovem que não fala muito, aparecendo de tempos em tempos na casa do pai.



Para completar, grande parte dos dramas psicológicos de Erlendur floresceram por conta do sumiço do irmão, durante uma forte nevasca, quando os dois ainda eram crianças. Já crescido, o detetive continua sonhando com ele, culpando-se por se perder do irmão durante o tempo inóspito. Nada de sobrenatural ou fantástico: apenas fantasmas do destino, assombrando-o constantemente. A vida normal pode ser mais assustadora e sinistra do que qualquer caso de polícia.

Os questionamentos e as idiossincrasias de Erlendur e das pessoas que o rodeiam são tão interessantes quanto às histórias que vão sendo contadas ao longo dos livros. Na verdade, o enredo que se desenrola em aparente segundo plano nos volumes é o principal motivo de as tramas protagonizadas pelo detetive apresentarem muito mais do que crimes, investigações, reviravoltas e, por fim, a solução do caso. Arnaldur Indridason está escrevendo uma narrativa sobre um homem que, em meio a várias tormentas, ainda tem que dar conta do dilúvio de dor e arrependimento que invadiu sua vida pessoal.



No olho do furacão, Erlendur se segura como pode. Parece com alguém que você conhece?




Por Hugo Oliveira 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Beleza na distância

Uma das peculiaridades de morar em cidades afastadas dos grandes centros culturais é uma quase necessidade de aproveitar o máximo possível as oportunidades de entretenimento quando essas se apresentam. Morando em uma cidade cujo único cinema disponibiliza uma programação, digamos, conservadora, não foram poucas as vezes em que assisti a duas ou três sessões seguidas em um mesmo dia de estadia no Rio de Janeiro – a apenas duas horas de distância, mas distando séculos de afastamento cultural de Angra dos Reis, cidade onde hoje resido.

Justamente por isso, no último fim de semana, não poderia perder a oportunidade de presenciar os concertos de dois nomes de estilo e sonoridades tão distintas que se apresentavam em horários compatíveis e distância relativamente curta.

O primeiro, Cidadão Instigado, é a banda mais importante do Brasil nos últimos anos. Se em estúdio apresentam trabalhos extraordinários, ao vivo superam a qualidade das gravações. É sempre uma satisfação contemplar uma banda cada vez mais afiada, executando com precisão (sem abrir mão do feeling) os criativos arranjos e dinâmicas de suas canções. Esse show do álbum Fortaleza é um espetáculo de rock n' roll com tamanho nível de qualidade que não vejo nenhuma outra banda ou artista no Brasil hoje que sequer se aproxime. Catatau parece cada vez mais inspirado, com uma postura mais sólida e segura do que das outras vezes em que assisti à banda.

O show aconteceu no Oi Futuro Ipanema, teatro que me gera sentimentos conflitantes. Se, por um lado, a acústica é ótima, com qualidade de som acima da média das casas brasileiras, a presença de cadeiras e a proibição do consumo de bebidas alcoólicas torna o lugar pouco afeito a concertos de rock. Nesse especificamente, senti uma energia represada, que seria mais bem explorada em um lugar como o Circo Voador ou o Teatro Rival, local onde havia assistido o Cidadão Instigado anteriormente, em 2011.

foto: Rogério von Krüger
O segundo tempo da noite passei em atmosfera bem diferente, Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho, na Fundição Progresso.

Há algumas semanas, depois de um tempo afastado do samba, em uma promoção de CDs, peguei dois discos do Zeca Pagodinho de meados da década de 1990, um momento interessante da obra do cantor, quando, com o auxílio do maestro Rildo Hora, os arranjos passam a incorporar batidas afro ao tradicional partido alto, levando a carreira de Zeca a outro patamar.

Familiarizado novamente, não haveria momento melhor para vê-lo ao vivo. Anos antes, estive em dois shows: no primeiro, estava “alterado” demais para curtir o espetáculo e, no segundo, o cantor é que estava “sem condições” de fazer um bom show. Felizmente, dessa vez, a conjuntura parecia favorável para ambos.

Confesso que assisti de longe à abertura do sempre competente Fundo de Quintal. Estava acompanhado de uma grande amiga e aproveitamos para nos atualizar sobre os acontecimentos recentes, visto que pouco conseguimos nos encontrar pessoalmente. Ainda assim, deu pra sentir a vibração de clássicos como “Conselho” e “O show tem que continuar”.

Com relação ao Zeca Pagodinho, o que mais impressiona é a quantidade de sucessos e a consistência da apresentação. Não há pontos baixos, é o tipo de show em que se torna difícil escolher a hora de buscar mais cerveja. Com o que talvez seja a grande voz de samba da atualidade, representação do melhor da boa malandragem carioca, Zeca entoa sambas da Velha Guarda, os inevitáveis hits e pequenos clássicos pessoais de cada pessoa na plateia. É curioso perceber o público interpretando, cada um a seu modo, os sambas sentimentais, bem-humorados ou reflexivos do repertório.

Já assumindo o risco de simplificações vazias, não há como deixar de notar a diferença de clima e postura entre o público “de rock” do Cidadão Instigado e a plateia do samba. Enquanto os primeiros são mais fechados, contidos e circunspectos; no samba há maior diversidade e um público menos atento, mas mais exultante e participativo. No final das contas, duas excelentes apresentações que exemplificam a riqueza e pluralidade da tão subestimada (muitas vezes, pelos próprios brasileiros) cultura nacional.


Por Ricardo Pereira