"There's a fear I keep so deep / Knew it name since before I could speak (...) If some night I don't come home / Please don't think I've left you alone"- Keep The Car Running, Arcade Fire

quarta-feira, 2 de março de 2011

Read me your favourite line


Bárbara, você existe? Por onde você anda? Queria poder te ver de novo, depois de tanto tempo. Seu nome é mesmo este? Por que tanto mistério? É uma das coisas que mais ficaram obscuras, penso que hoje você faria diferente, ou não?

Hoje deu saudade de você. Do nada, pensando que vou passar o carnaval mais tranquilo dos últimos anos, para o bem e para o mal, pensei que se pudesse escolher alguém pra fugir do carnaval comigo, esse alguém seria você. Talvez você não acredite nisso assim ao lembrar o meu comportamento da época, mas estou sendo mesmo sincero. Fui um babaca muitas vezes com você, o modo como nos conhecemos influenciou muito nisso. Depois você deve ter percebido que sou muito mais ‘devagar’, tradicional do que aquilo. Hoje agiria diferente.

Nunca te falei, mas você foi importante pra caramba pra mim naquela época. Estava numa fase das piores, isolado no alojamento, sem vontade de fazer nada e você iluminou um monte de coisas. Eu fingia indiferença, mas adorava descer da biblioteca e te encontrar me esperando na entrada da EBA ou quando você me pedia pra ler Baudelaire pra você e dizia que eu tinha cara de poeta – a barba engana... Na verdade, você sempre me enxergou melhor do que eu sou, mais inteligente, com uma sapiência que nunca possuí. Mas hoje vejo com clareza o quanto isso me fez bem!

Tem vários bons momentos que guardo. Alguns bobos, lembro de uma vez a gente ouvindo Weezer e você achando graça quando falei que não namorava você porque queria uma garota que não riria para nenhum outro, que guardasse a maquiagem quando eu não estivesse fora, etc etc. Ou das minhas piadas sem graça sobre o fato de alguém como você me encontar no alojamento... A burguesia, lembra? rs Sem contar o fato de eu ter feito você ouvir o Kid A e o Amnesiac em sequência e você não ter saído correndo, ao contrário, procurou se inteirar, fez perguntas. Se fosse hoje, casaria na hora. rs

Muita coisa mudou por aqui desde a última vez que nos vimos - na rodoviária, você chegava de São Paulo, acho, e eu esperando o ônibus, você estava linda, conversamos sobre um monte de coisas e eu agi como um babaca, mais uma vez... -, hoje sou professor e não só faço um bom trabalho como gosto disso (!!); o Botafogo montou o melhor time desde 95 e não ganhou nada; tive meu momento Marcelo Camelo, me envolvi com uma menina – você riria disso, mas não tem problema, até eu consigo rir já – me descacetei, fiquei cego, mas já me curei. Consigo enxergar, ainda com neblinas, mas vai ficando mais claro a cada dia, perdi muito com isso e ganhei também, ganhei, deixa eu ver... a possibilidade de entender melhor as canções do Lupicínio ou o Dylan do Blood on the tracks­; vi o R.E.M. ao vivo de novo e o Radiohead e o Paul (!!); voltei pra Angra; tô meio decadente fisicamente, gordo escroto, mas é só eu tomar vergonha na cara – o ócio, você sabe, isso não mudou...; de resto, a mesma coisa, os discos e livros continuam mais importantes do que quase tudo, continuo também teimoso e mais antissocial do que o recomendável.

Queria que soubesse isso aí tudo, você não foi a mulher mais apaixonada por mim, a que mais me amou, mas acho que foi a que mais gostou de mim pelo que eu realmente era, conseguindo admirar até meus defeitos. O que eu sei que não é legal, e também sei que se ficássemos mais tempo juntos, tudo seria diferente, provavelmente pra pior. Ainda assim, desculpa por não ter tentado. Não foi por falta de aviso, não é, Marcella?!

Só consigo escrever com tanta naturalidade porque sei que dificilmente você vai ler isso, ou será que escrevo na esperança de que você ache esse texto e me procure de novo? Sei que não, gastei todos os meus créditos nessa, reconheço. Espero que esteja bem, se estiver com alguém, que seja um cara bacana - melhor que eu é difícil, você sabe... rs – que pelo menos saiba te valorizar mais do que eu fui capaz.

Por Ricardo Pereira